quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ALIMENTO ESPIRITUAL


Podemos adoptar como princípio o conto A Biblioteca Infernal, de Zoran Živković, onde a personagem central, julgando encontrar-se numa biblioteca, dá por si em pleno Inferno. O guarda do estranho local explica: «Cada época tem o seu próprio Inferno. Agora é uma biblioteca». As razões para que tal tenha sucedido são fáceis de entender se tivermos em conta a quantidade ínfima de pessoas que em vida leu um livro do princípio ao fim. Espantado com a situação, o visitante do Inferno pergunta: «É este, então, o meu castigo? Ler?». Mas o guarda recusa chamar-lhe castigo, opta por chamar-lhe terapia: passar a eternidade a ler. Castigo ou terapia, a leitura há-de ser sempre uma actividade controversa. Ensinamos as nossas criancinhas a ler, escrever e contar porque julgamos estar a prepará-las melhor para os desafios da vida dotando-as dessas ferramentas indispensáveis na nossa sociedade. Porque os desafios da vida são o grande negócio da existência, perguntamo-nos se não seria preferível protegê-las de tais castigos?

Tuiavii teria as suas razões para considerar que os povos ocidentais mergulham numa espécie de embriaguez e delírio com a leitura, embora esta embriaguez e delírio, dando as mesmas dores de cabeça em situações de ressaca, proporcionem tipos de prazer dissemelhantes. «O Papalagui lê. Mergulha os olhos no que os muitos papéis contam. E todos os Papalaguis fazem o mesmo: lêem. Lêem o que os chefes de tribo de mais alta estripe, ou os seus porta-vozes, disseram dos seus fonos. Isso vem inscrito, palavra por palavra, na tal esteira, mesmo quando eles disseram uma grande palermice. Também lá vem descrito o género de pano que traziam ao falarem, e o que comeram, e o nome do seu cavalo, e se sofreram ou não de elefantíase, se são fracos do juízo». Tuiavii refere-se aos jornais. É impossível negar que os jornais, «inútil alimento», assim como a maioria dos livros, estão cheios de futilidades destas, conversa supérflua para encher chouriços, mas podemos ir um pouco mais além na nossa demanda de um sentido para a leitura.

Castigo será se não provocar prazer, se o tempo desperdiçado com a leitura não for compensado pelo que de melhor ela tem para oferecer. E o que ela tem para oferecer não é, embora por vezes tente penetrar esses domínios, uma multiplicidade de orgasmos mentais que justifiquem a sua prática. Estou convencido de que os homens apenas insistem no amor, sabendo das amarguras que o amor origina, porque o prazer que ele tem para oferecer legitima o risco da derrota e do sacrifício. Com a leitura passa-se algo semelhante: ainda que ela possa, em determinadas circunstâncias, revelar-se um pesado castigo, jamais esse castigo será suficientemente insuportável para nos demover do risco que corremos ao iniciar uma leitura. Imaginemos por um momento que toda a literatura universal desaparecia subitamente do mundo. O que aconteceria? Certamente não aconteceria o mesmo se em vez de literatura desaparecesse um elemento essencial como a água, mas é muito provável que num cenário desses o homem se encarregasse imediatamente de produzir mais literatura.

Perguntar para que serve a leitura é quase o mesmo que perguntar para que servimos. Podemos escrever como o Miguel-Manso num poema: «pronto enfim para a ideia para o poema // com a certeza feliz e exacta de tudo ser / inútil». Em vez de perguntarmos para que serve a leitura, perguntemos para que serve o homem; em vez de perguntarmos para que serve o homem, perguntemos para que serve o mundo; em vez de perguntarmos para que serve o mundo, perguntemos para que serve o universo. Não tem que servir para nada, é porque é. E a parangona da inutilidade é a mais inútil de todas as parangonas. Se não for pelo castigo, que seja pela terapia. Ainda há não muito li num jornal que a poesia salva, que pelo menos terá poupado o presidente de uma empresa petrolífera e o presidente da SIBS ─ empresa que gere o Multibanco ─ por na poesia terem esses indivíduos encontrado, digo eu, subterfúgios para a consciência. Tal como a escrita, a leitura liberta. Essa é a sua maior utilidade numa sociedade de escravos como aquela de que fazemos parte. E se uma biblioteca pode ser infernal, a vida não o é em menor grau.

1 comentário:

Mariana disse...

"se uma biblioteca pode ser infernal, a vida não o é em menor grau"