domingo, 28 de novembro de 2010

APRESENTAÇÃO DE SOB OS TEUS PÉS A TERRA


Mais vodka, menos vodka, foi isto que improvisei no passado dia 26 na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul:


Ouvimos falar de estreias tardias quando um poeta lança o seu primeiro livro em idade avançada. Às vezes penso que não há estreias tardias, há apenas estreias precipitadas. Voltei a pensar assim ao ler o livro da Soledade Santos, que nasceu no Sabugal, terra da Guarda, em 1957, e aparece agora, pela primeira vez, em livro individual. Já lhe tinha lido muitos poemas num weblog infelizmente suspenso, o Nocturno com Gatos, de onde suponho virem muitos dos poemas deste livro, entre os quais, desde logo, aquele que tem o mesmo título do weblog em causa. Também lhe li uma dúzia de poemas numa singela antologia, publicada em Setembro de 2002, pela editora Sete Sílabas, uma antologia intitulada Quatro poetas na net que juntava aos poemas da Soledade versos de Nuno Dempster, também estreado tardiamente, de Daniel Francoy, recentemente publicado pela Artefacto, e de José Félix. São poetas que de alguma forma anteciparam um fenómeno hoje evidente: a Internet tornou-se um meio privilegiado na divulgação de poesia, o que não é de estranhar num tempo em que a relação das editoras com a arte poética é deveras tímida.

Julgo que a principal dificuldade que se colocou à Soledade foi a selecção e a organização dos seus poemas. Uma coisa é ir escrevendo poesia, outra coisa, bem diferente, é organizar num só conjunto essa produção. Os críticos tendem a olhar para os livros de poemas muito em função de critérios de homogeneidade temática e estilística. Pessoalmente, e talvez seja um defeito pessoal, agradam-me esses livros que os críticos apelidam de desiguais, não porque tenham poemas bons e outros menos bons, isso é coisa que acontece a todos sem excepção, mas por arriscarem uma diversidade que me parece concordar com a natural instabilidade das pessoas. Surgindo o poema de uma relação íntima entre os estados de alma e a indagação racional, o trabalho do poeta só pode ser o de actuar sobre os instantes, moldando o barro até que este assuma uma forma expressiva satisfatória. O livro da Soledade não é desigual no que respeita à sua qualidade intrínseca, mas está organizado em quatro conjuntos de poemas que, quanto a mim, denotam estados de alma diversos. São poemas que terão sido escritos em fases diferentes da vida, agora organizados num todo cuja coerência é, precisamente, a sua heterogeneidade.

Antes de mais, convém deixar claro que estamos a falar de uma poeta que domina claramente os mecanismos da língua portuguesa. No entanto, se nas entrelinhas pressentimos ecos de vozes nacionais, à excepção de Herberto Helder, os poetas citados de um modo óbvio são todos estrangeiros: Elizabeth Bishop, Luis Cernuda, Leonard Cohen, Odysséas Elytis (a quem o título do livro foi pedido de empréstimo), Yannis Ritsos, René Char, Andre Breton, Ursula K. Le Guin. Se repararmos, esta constelação polifónica ajuda-nos a perceber que a Soledade não está interessada em submeter a sua poesia a nenhum tipo de trâmite poético, a nenhuma teoria estética pré-estabelecida. Estará mais interessada, provavelmente, em aproveitar o que exista de bom e de belo em cada uma daquelas vozes, ainda que divergentes, e fazer disso exemplo. Não estamos a falar de uma poesia multirreferencial ou, como por vezes se diz, de uma poesia culta, o que é quase sempre o mesmo que dizer poesia chata. Estamos somente a falar de uma poesia que não enjeita um diálogo informal com outras poesias.

No primeiro conjunto de Sob os teus pés a terra está presente o sentimento de perda num contexto mais problemático do que efectivo. Os poemas da Soledade revelam uma consciência interna do tempo e dessa ditadura que o tempo imprime às coisas. O tempo, o passar do tempo, torna indiscutível o desaparecimento: leva-nos pessoas, situações, momentos, transforma-nos o corpo numa espécie de receptáculo de memórias que pesam sobre a terra. Mas este sentimento de perda tem as suas nuances. Um poema como IN MEMORIAM pode ajudar-nos a compreender melhor quais são essas nuances. No centro do poema estão os amigos, os que mudaram ao longo do tempo, os que partiram, os que foram esquecidos. Tudo isto resultaria absolutamente vulgar, não viessem duas estrofes finais trair essa vulgaridade: «Mas nada se perdeu digo-vos, / onde havia um muro e um rio / e uma canção de vidro escuro / como rasgões cada pedra ostenta / ecos de risos ímpetos os sulcos / empoeirados do crescimento. // E tudo é como foi imperfeito / e a seu modo permanece» (p. 12). O que passou como que ficou registado nas pedras (elemento sólido, resistente, testemunhal), e o essencial, a imperfeição das coisas, mantém-se.

O sentimento de perda, na poesia de Soledade Santos, não remete para paraísos perdidos nem para infâncias sentimentalmente recordadas. Ele é antes uma espécie de consciência do esmaecimento, do desbotamento - como uma peça de roupa que ao longo dos anos vai perdendo cor mas pela qual guardamos um afecto especial. Estes remates “paradoxalizantes” são frequentes nos poemas da Soledade. Desarmam um lirismo impressionável e idílico. Quando o poema ameaça repetir algo que teremos escutado noutras paragens, aparecem dois, três versos, uma estrofe inteira a desarrumar a leitura e os preconceitos que poderão adulterar essa leitura. Perdemos o domínio do poema, o poema como que instala um momento de transtorno que é característico de toda a boa poesia. Por vezes o remate sugere uma certa ironia. É o que acontece, a título de exemplo, no poema CARTA. Qualquer pessoa que o comece a ler julgará tratar-se de uma carta de amor. E de alguma forma o é. Mas no final o amor passa para segundo plano mediante a constatação da parca qualidade do papel: «Por isso escrevo, / mas afecta-me a transparência essa vaga moléstia / chamada distância e nem sequer / é de boa qualidade este papel em que a caneta arranha» (p. 31).

Os dois poemas anteriormente referidos permitem perceber outras características desta poesia: a clareza linguística é uma delas, a depuração da linguagem, assim como um ritmo que joga frequentemente com rimas internas, associações livres, utilização de vocábulos já não muito usuais, aglutinações. No entanto, este uso é feito de uma forma ligeira, natural, não se quer impor como característica essencial de uma poética. A arte poética que ressalta dos poemas da Soledade Santos é muito menos formal, é uma arte poética que busca a simplicidade. Isso está patente em poemas como NÃO PRECISAMOS DE MUITA COISA ou no poema UMA POÉTICA. Não sendo uma poesia bucólica, é uma poesia que tem no campo o seu principal cenário. Mesmo a Lisboa que aparece, sobretudo na última parte do livro, é uma Lisboa rústica, perdida, provinciana, lá está, esmaecida. São poemas que mantêm uma relação muito próxima com a natureza, com o campo, com os sons, os cheiros, as imagens do campo. Estão repletos de patos selvagens, cotovias, corvos, salgueiros, sardinheiras, crisântemos, pardais, cerejas, figueiras, ervas, galinhas, perus, patos, rolas…

Quero, no entanto, sublinhar dois aspectos que me pareceram mais marcantes nos dois últimos conjuntos do livro. Os poemas finais deixam-se invadir por uma melancolia e um desencanto que me parece ter na sua origem o sentimento de solidão. Se no início era a perda que se evidenciava, agora é a solidão, talvez como consequência da perda, o que mais se evidencia. Neste sentido, a figura do gato, é uma constante do terceiro conjunto, quer enquanto companhia doméstica, quer, talvez, como elemento contrastante com a vida rotineira e caseira do sujeito poético. Há como que um sentimento de não lugar que vem à tona, uma espécie de não pertença. O gato é, ao mesmo tempo, animal doméstico e independente. Ele representa, porventura, uma impaciência que não se cala dentro daquele que vive a solidão. Não deixa de ser curioso, a propósito ainda da organização do livro, que o primeiro poema do primeiro conjunto e o primeiro poema do último conjunto dialoguem tão bem. São poemas que de alguma forma se complementam. Remetendo para a origem biográfica, como que se resolvem numa espécie de biografismo ausente. É como se a Soledade estivesse a dizer: eu vim dali, já não sou dali, não sou de lugar algum, serei apenas de mim mesma, talvez nem isso seja, sou da terra, inevitavelmente da terra, somos todos da terra:

A ÚNICA VERDADE

Em louvor de Bernardim Ribeiro

A única verdade é a linha que puxo na extremidade da agulha,
ponto a ponto desenho
a paciência, refaço os gestos
das minhas avós.

Quantas coisas se passavam na cabeça das mulheres em seu estrado,
em seus olhos dobrados,
e eu que nunca tive
paciência.

Mas quem fui bem vedes que o não sou já
e pois que não tenho armas para ofender,
faço desenhos de flores brilhantes com linhas
de seda paciente,
é tudo o que posso fazer
com os olhos dobrados
na noite
que não pára de crescer
.


Soledade Santos, Sob os Teus Pés a Terra, Artefacto, Novembro de 2010.

6 comentários:

Amélia disse...

Gostyei de estar lá, na festa de uma amiga e excelente poetisa. E achei justa a sua apresentação. Abraço amigo

hmbf disse...

Justa ou injusta, foi a possível.

Soledade disse...

A tua comunicação na Guilherme Cossoul foi um momento memorável, Henrique. Obrigada! E prometo não baptizar mais o vodka :-O

hmbf disse...

Memorável é muita fruta. :-) Obrigado eu, pelo vodka crismado....

maria azenha disse...

Parabéns à Soledade, gosto imenso do que ela escreve.
já tive oportunidade de a ler em outras paragens.

maria azenha disse...

Parabéns à Soledade, gosto imenso do que ela escreve.
Já tive oportunidade de a ler em outras paragens.