terça-feira, 9 de novembro de 2010

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO


Calhou que José Saramago, o único Prémio Nobel da Literatura português até à data, tivesse morrido neste fatídico ano em que tudo parece submeter-se à ditadura dos mercados e aos objectivos financeiros dos agiotas. Sabemos como o autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis se opunha visceralmente à desumanização perpetrada por isso que os especuladores denominam eufemísticamente de economia glogalizada. Também sabemos que nunca deixou de fazer da literatura uma força de agitação das consciências, um testemunho alegórico do seu tempo e, numa perspectiva mais universalista, dos conflitos éticos, morais, sociais e até culturais que marcam indelevelmente a história dos homens. Com a sua morte, é como se tivéssemos ficado órfãos de uma certa forma de estar na vida literária. A literatura não se esgota numa dimensão política, é certo, mas será sempre um erro pretender excluí-la, enquanto gesto enérgico, por vezes incendiário, dessa sua componente essencial.

No universo da poesia, falar de poema político serve apenas para atalhar a problemática inerente à complexa relação mantida entre a estética e a ética. Toda a boa poesia é, ao mesmo tempo, política e apolítica. É política por nela vislumbrarmos aquilo a que os surrealistas chamavam de «projecto político de vida poética», mas também é apolítica quando esse projecto de vida poética exige a supressão das regras impostas pelo inferno da sociedade. Um poema político só pode ser, pois claro, aquele que dê testemunho de uma relação livre e crítica com a realidade, de uma relação desconfortável e inconformada, de uma relação que transcende uma postura meramente contemplativa, passiva ou puramente estética. Estas são posturas que não deixando, também elas, de serem políticas, estão longe de se afirmarem mormente pela função assertiva do poema político. É essa assertividade que encontramos n’O Ano da Morte de José Saramago, longo poema de Amadeu Baptista recentemente publicado pela impagável &etc (Setembro de 2010).

Poeta de reconhecida prolixidade, brindada com variadíssimos prémios literários atribuídos/obtidos ao longo da última década, Amadeu Baptista reincide no poema longo, de verso livre e extenso. Note-se, porém, que estamos a falar de um poeta com uma obra vastamente erigida sobre o poema-sequência, variante mais tímida, ou talvez menos dinâmica, do poema longo. Neste caso, a morte de José Saramago é o pretexto encontrado para cerca de 65 estrofes contundentemente depreciadoras da actualidade. O impetuoso ritmo de escrita que caracteriza o poema obriga-nos a uma leitura ininterrupta, transportando-nos para lugares perfeitamente identificáveis (Porto, Viseu) ao mesmo tempo que nos lança no interior de uma espécie de fábula que mistura columbofilia com poesia e pombos com poetas: «Pombos, poetas, columbófilos, versos ─ os homicidas / extravasam as regras instituídas, hão-de querer matar / cada um destes sobreviventes, hão-de afundar-nos / na catástrofe da aurora, em que nenhum arbusto pega / de estaca, nenhum modelo de barro sucede ao exemplo / da argila que chora» (p. 10).

De resto, a imarcescível resistência dos poetas, em contraponto à degradação do meio social, é uma questão recorrente na poesia de Amadeu Baptista. Não é por isso de estranhar que neste poema encontremos também um interlocutor concreto, o poeta Nuno Dempster. A condição dos poetas fica então estabelecida, são «homens calados que não podem estar calados» (p. 13), embora seja «uma desvantagem escrever versos que ninguém há-de ler» (p. 24). Apesar da mediocridade disseminada pelo mundo, a qual neste livro tem por emblema as lojas dos chineses, estes versos que ninguém há-de ler evocam constantemente um tempo passado, como que pretendendo reforçar, num pessimismo queirosiano, a torpeza do tempo presente. A esse diálogo mantido entre o presente e o passado nós chamamos peregrinação interior, do mesmo tipo daquelas que o autor de Antecedentes Criminais tão bem levou a cabo nos melhores dos seus mais recentes livros: Negrume (Março de 2006), Açougue (2008) e Os Selos da Lituânia (Janeiro de 2009). São livros de uma impressionante clareza, amargos, desolados, indignados, ainda que estimulantes nas suas seminais propostas: «está o Saramago morto, / estamos todos mortos neste infame globo, / quanto mais mortos estivermos melhor nos escravizam // Ah, dancemos, / dancemos, ainda, irrevogavelmente, / soltemos uma gargalhada visceral sobre tudo isto» (p. 41).
Escrito para o Rascunho.

2 comentários:

Mariana disse...

Andei repassando alguns links deste blog entre alguns colegas, e encontraram boa acolhida. Quanto ao Saramago, li o indispensável para não passar por "distraída", e "Memorial do convento" eu gostei muito. Mas "Ensaio sobre a cegueira" me causou um desconforto ofensivo, eu diria, era brutalidade demais. Essa nulidade eu não aceitei, nunca consegui aceitar. Uma amiga disse que a cegueira branca seria pelo excesso de tudo, de conhecimento, de luz, de saber, e aí ficava difícil discernir, escolher. Não deixa de ser uma asserção curiosa. Bem, creio que me estendo. Post interessante, como outros que tenho lido por aqui.

hmbf disse...

Obrigado pelo comentário e pela publicidade. O Ensaio sore a Cegueira é um bom livro, mas A Peste, de Camus, é melhor. Este livro/poema do Amadeu também é excelente. Dos melhores dele.