quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A UTILIDADE DA LITERATURA

A ideia não é nova. Antoine Compagnon, numa excelente comunicação intitulada Para que serve a literatura? (Deriva, Julho de 2010), refere-se a esse poder de libertação e de contestação que os românticos reconheciam à ficção. Constatado o amortecimento da literatura na actualidade, ou pelo menos da sua relevância junto da autoridade e das massas, substituído esse poder por uma utilização frugal e meramente lúdica do objecto-livro, cabe indagar a importância que o literário ainda possa ter. O advento das novas tecnologias, o crescimento dos audiovisuais, o aparecimento de múltiplos dispositivos onde a literatura surge acompanhada ou rasurada pelo visual, parecem querer tornar razoável a ironia de quem afirma ser mais útil a limpeza a seco do que a poesia. «A própria literatura ─ afirma Compagnon ─ parece, por vezes, duvidar da sua legitimidade face aos discursos rivais e às novas técnicas», não obstante a quantidade avassaladora de obras que continuam a surgir todos os anos ou a serem reeditadas.

Isso a que António Guerreiro chamava recentemente de “vida literária” não mais é do que o espectáculo deprimente de um culto transformado em mercadoria. A verdade é que para lá do espectáculo e das legítimas aspirações dos artistas há um saber que vai fazendo o seu caminho, como sempre ou quase invariavelmente no silêncio dos holofotes. É aí, nesse lugar silencioso, que vale a pena perguntar: para que serve a literatura? Entre o ruído, ela serve para fazer mais ruído; é negócio, puro negócio; é mais um dos variadíssimos elementos que acodem à política do lazer; é mata-tempo. Não só não vislumbro qualquer mal nisso (talvez uma certa negligência ambiental), como me é completamente indiferente que as pessoas se divirtam e se entretenham a ler enfadonhas histórias de amor e morte. O problema não reside na qualidade daquilo que se lê (aquilo que se lê é aquilo que se produz e vende e compra), reside antes na tendência para varrer a educação literária/humanística (ou educação para o saber literário) para baixo do tapete tecnológico. Mas outra questão, menos “contingencial” e mais essencial, é a «utilidade e relevância» da literatura.

Antoine Compagnon diz que: «Lemos porque, mesmo se ler não é imprescindível para se viver, a vida se torna mais livre, mais clara, mais vasta para aqueles que lêem do que para aqueles que não lêem». Suponho que uma afirmação destas só possa vir de alguém que lê e observou atentamente outrem que não lê. Não é uma resposta convincente à pergunta inicial, até porque não clarifica o que está implícito na afirmação: por que são menos livres as pessoas que não lêem? Vale esta proposição para todas as sociedades ou apenas deverá ser tida em conta numa sociedade onde o saber literário já teve ou ainda tem alguma predominância sobre outros saberes? Serei eu, que leio, mais livre que um (índio) analfabeto?

Compagnon inventaria algumas das soluções que foram sendo avançadas, ao longo dos tempos, para o problema da utilidade da literatura. Da catarse aristotélica, sinónimo de «contributo para uma vida boa», ao remédio proposto pelas Luzes, contributo para a autonomia, a liberdade e a independência de pensamento, são várias as razões que nos levam a crer ter a literatura uma utilidade reconhecida e, a espaços, temida. Lembremos, a propósito, a história contada por James Wood, in A Mecânica da Ficção (Quetzal, Abril de 2010), do presidente da Câmara de Neza que decidiu distribuir pelas suas forças policias livros de Juan Rulfo, Octavio Paz, García Márquez, Edgar Allan Poe, entre outros, convencido de que a leitura das mesmas tornaria os senhores agentes pessoas mais solidárias e compassivas, em suma melhores cidadãos. Esta fé no poder terapêutico da literatura não é nova, embora possa parecer ingénua. Criminosos históricos foram grandes leitores e não descuramos a ideia de que grandes escritores tenham sido autênticos criminosos.

Outras respostas à pergunta colocada por Antoine Compagnon: a literatura «corrige os defeitos da linguagem», compensa «a insuficiência da linguagem»; ou a literatura «permite respirar»; o próprio avança com a sua proposta, afirmando que «a literatura ajuda ao desenvolvimento da nossa personalidade ou à nossa educação sentimental»… Todas estas respostas enfermam de uma pedagogia politicamente correcta a evitar, não só por ser facilmente desmontável mas também por poder afastar potenciais leitores. Só precisa de corrigir defeitos quem reconhece que os tem, só precisa de terapia quem está doente, só precisa de aprender a sentir melhor (o que será isso de sentir melhor?) quem julga que sente mal! Esta ideia de um ser humano patológico que a literatura purificará é insustentável, até porque a literatura é uma criação humana. A anunciada proximidade do apocalipse lembra-nos de que o nosso fim foi acelerado desde a disseminação da literatura, como se esta fosse um vírus propagado pela humanidade para dar cabo da sua subsistência (language is a vírus, dizia Burroughs). Independentemente da face irónica do problema, à pergunta Para que serve a literatura? resta apenas uma resposta honesta: serve para ler. Se ler serve para alguma coisa, isso já é outra questão.

3 comentários:

Mariana disse...

Isso tudo é muito interessante. Ao mesmo tempo que me sinto incapaz de viver sem a literatura (e tenho que dar uma segurada na coisa do bovarismo), eu não a acho imprescindível de maneira indistinta. Mas o curioso é que até bem pouco tempo atrás eu tinha uma concepção muito ingênua de que a literatura era o "calix bento" da porção da humanidade banhada pelo mar greco-romano... Talvez por que ela seja muito importante na minha vida. Pra que serve a literatura? Talvez, como qualquer expressão artística, e quando ela tem essa dimensão, para sacudir os neurônios amortecidos.

hmbf disse...

«sacudir os neurônios amortecidos»


Excelente.

Miguel (St. Orberose) disse...

Lemos porque, mesmo se ler não é imprescindível para se viver, a vida se torna mais livre, mais clara, mais vasta para aqueles que lêem do que para aqueles que não lêem.

Não considero a minha vida mais livre ou clara por ler; mais vasta, talvez; mas a leitura, com o conhecimento que traz, torna-me consciente de como vivo preso a mais coisas do que pensava: à história, à política, à economia, à biologia. Com mais conhecimento surgem mais dúvidas, tudo se desfaz, deixo de ter uma imagem compreensível da existência, vejo tudo cada vez mais em fragmentos, nada coere, vejo tudo desconjuntado.

Diria que quem não lê provavelmente sente menos angústia, menos confusão; olham para o mundo, aceitam-no, não o questionam com saberes novos, resignam-se, não têm ansiedades por perceber que começaram a levantar o véu a algo que, porém, ficará sempre escondido um pouco.