
Cheguei a Nicanor Parra (n. 5 de Setembro de 1914) através de um artigo de Joaquim Manuel Magalhães sobre
Respiração Assistida de Fernando Assis Pacheco (n. 1937 — m. 1995). Nesse artigo, publicado no
Expresso de 3 de Julho de 2004, Magalhães chamava a atenção para a influência do chileno na poesia de Assis Pacheco:
«Como referência para os leitores da obra de Assis Pacheco, Parra inclui-se com ele no numero de poetas, bem raros, para os quais a importância da poesia não depende do seu empolamento, mas numa distância do estentório por parte do autor, que não quer tornar-se um tribuno de si mesmo, por muito que saiba quanto é ele que está envolvido naquelas palavras que, depois, para ver o que acontece, parece dependurar como um trapo à distância como se de coisa mal cheirosa se tratasse. Sempre como se o valor da poesia estivesse noutro lugar que no da poesia ela mesma; ou como se a presença do seu autor só ganhasse autenticidade se este se distanciasse para silêncios supostamente indiferentes». A relação de Nicanor Parra com a poesia pode, de facto, ser entendida a partir de um pressuposto de distanciamento, mas esse distanciamento não tem tanto na sua origem uma desvalorização do poético como parece ter uma revalorização de tudo o que possa ser considerado matéria de poesia. O
antipoeta opta por uma postura ecológica relativamente às ferramentas do
poeta aureolado, é parco em metáforas, imagens e símbolos, prefere uma linguagem prosaica e coloquial ao hermetismo de uma poesia assente na sublimação do mundo. Os seus poemas estão em relação directa com a experiência, não buscam paraísos utópicos nem imaginários, deixam-se contaminar de desesperança e aceitam o absurdo da existência, mas propõem um enraizamento coerente na claridade da palavra. O
antipoeta é um colector de factos, acontecimentos, situações, dessublima a realidade e desmistifica a poesia, traz para dentro do poema os conflitos quotidianos, intenta uma espécie de sabotagem de todas as ideologias que não sejam a sua própria ideologia, uma ideologia antiacadémica, contrapoder, ferozmente crítica e derisória das instituições manipuladoras e opressoras da opinião pública. Os seus principais inimigos são a inverdade e a incoerência, daí que, por vezes, a
antipoesia nos pareça niilista e até cínica, na medida em que parte de uma
autodesvalorização como pilar da disposição céptica e iconoclasta que manifesta. Tem por alvo as verdades unívocas e por isso mistura riso e pranto, humor e negrume, mistura o popular com o vanguardista, a quadra ao gosto comum com o
ready made, anulando a «separação hierárquica entre alta e baixa cultura». Mario Rodríguez afirma que Parra é um destruidor de mitos. Nenhum dos outros grandes poetas chilenos, de Vicente Huidobro (n. 1893 – m. 1948) a Pablo Neruda (n. 1904 — m. 1973), de Pablo de Rokha (n. 1894 – m. 1968) a Gabriela Mistral (n. 1889 – m. 1957), logrou criar um universo tão particular. Na relação com os seus pares, Parra foi igualmente incisivo:
«La relación com el pasado literário es impugnadora y subversiva en la medida en que se distancia de la solemnidad, la grandilocuencia o el carácter sacro de la poética establecida, y si son muchos los ejemplos que pueden aducirse, seguramente el más relevante lleva por título «Manifiesto». Ahí Parra condena «La poesía de pequeño dios / La poesia de vaca sagrada / La poesía de toro furioso», en clara referencia a Huidobro, Neruda y De Rokha»… E com o fragmento que se segue encerro a minha jornada pela poesia do
mapuche:
NÃO SEI NÃO SEI
Eu pertenço a um mundo perdido
Porém acredito no ser humano
Porém acredito em Deus e no Diabo
Para o dizer de uma vez por todas
Eu sou
Um desses mostrengos modernistas
Que confundiram o Ser com o Ente
Nem progressista nem conservador
Mas sempre o contrário Sr. Reitor:
Ecologista morto de medo:
Uma pulga no ouvido do Minotauro:
Meu reino por um par de muletas eléctricas!
Não me meterão vivo no caixão:
Ao cemitério irei pelos meus próprios pés
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