Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: POLÓNIA


Apesar de nunca ter estado na Polónia, já fui à Polónia. Foi em Atenas, numa pensão reles chamada Afrodite. Como a minha mulher não sabe desta história, fico-me por aqui. Prefiro falar-vos de Óssip Mandelstam, que nasceu em Varsóvia no ano de 1891 mas não é propriamente polaco. Ou de Czeslaw Milosz, que tendo nascido na Lituânia em 1911 não deixa de ser polaco. Ou de Günter Grass, que também nasceu na Polónia, no dia 16 de Outubro de 1927, mas é mais alemão do que outra coisa qualquer. Aliás, esta é uma característica reconhecida dos polacos: não sendo polacos, são polacos sem deixarem de ser outra coisa qualquer. Outra coisa qualquer pode ser muita coisa. Veja-se o exemplo de Zbigniew Herbert, nascido em 1924 numa cidade polaca que faz hoje parte da Ucrânia. Resta-nos Wisława Szymborska, Nobel da Literatura em 1996. Nasceu em Bnin, agora parte da cidade de Kórnik, embora a família se tenha mudado cedo para Cracóvia. Diz-se que desde muito cedo foi uma criança interessada pelas artes dramáticas. Após a Segunda Grande Guerra, estudou Literatura e Sociologia, tendo então iniciado uma intensa actividade na revista Zycie Literacia. Os seus primeiros poemas apareceram nas páginas dos jornais. No entanto, viu uma colectânea ser rejeitada pelos editores. Com o fim da Guerra, o meio cultural polaco fora, digamos, tomado de assalto pelas doutrinas comunistas. À luz destas doutrinas, a poesia de Wisława Szymborska era demasiado complexa e tendencialmente burguesa. Tivessem ou não razão, a verdade é que desde então a sua poesia assumiu características mais políticas (mesmo quando apolítica). Elżbieta Milewska coloca o problema deste modo: «Se início, Szymborska terá sido influenciada pela poética do então obrigatório 'realismo socialista', mas em 1957 com o seu livro Chamada para Yeti, enveredou pelo caminho da poesia filosófica e existencial que não mais a abandonou». Personalidade reservada, raramente dá entrevistas e pouco se sabe sobre a sua vida. Escreve poemas, dos bons:

Vocábulos

─ La Pologne? La Pologne? Lá faz muito frio, não é? ─ perguntou
suspirando com alívio. É que surgiram por aí tantos países, que o melhor
é limitar a conversa ao clima.
─ Oh! Minha senhora ─ pensei responder-lhe assim: os poetas da minha terra escrevem de luvas. Não quer dizer que nunca as tirem, se a lua aquecer, então sim.
Com estrofes compostas de brados retumbantes, pois só assim se ouvem no meio dos vendavais urrantes, cantam o simples touro e os pastores de focas. Os poetas clássicos gravam com sincelos de tinta nos montículos de neve batida pelos pés. Por sua vez, os poetas decadentes choram a sua sina vertendo estrelinhas de neve. Quem quer afogar-se precisa de um machado para abrir um buraco no gelo. Oh! Minha senhora, minha cara senhora.
Pensei responder-lhe assim. Mas esqueci-me como se diz foca em francês. Também não estava certa de como se diz sincelo e machado.
La Pologne? La Pologne? Lá faz muito frio, não é?
Pas du tout ─ respondi glacialmente.



Wisława Szymborska, in Alguns gostam de poesia - Antologia, trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, Março de 2004, p. 133.

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