Ensinaram-me que ser católico só traria vantagens. O paraíso após a morte, confessados todos os pecados. Um futuro risonho à minha espera. E nem preciso que seja virgem. Em Terra, ser crápula pouco vale. Posso atirar a primeira pedra, esperar que faça ricochete, posso cuspir contra o vento, posso até cobiçar a mulher do próximo… só tenho que ser, como Arturo, mais veloz que a morte. E o meu guia espiritual bem alvitrou: olha que a cristandade começa no reconhecimento do pecado. Reconheço, Senhor, todos os meus pecados, reconheço que meto frequentemente o pé na poça, que a toda a hora conspurco o meu nome e o nome dos demais, reconheço, Senhor, o quão péssimo exemplo sou para os vindouros, reconheço-o arrependido porque estou consciente de todos as minhas transgressões. Aceita o meu arrependimento, aceitarei o teu éden.
Da base desta política existencial brotam os caules dos abetos. Enraízam-se no estrume como o mal no sangue. É deles que surge o mais ignóbil dos mitos. Veja-se esse malogrado Sucre, apenas um entre tantos, perseguido pelas insónias como Lucky Luke pela sombra. Uma diferença os distingue: o primeiro foi menos lesto. A História reservou-lhe um lugar, tépido lugar, um lugar que a vida teimou em usurpar-lhe. Não lhe concederam o consolo do reconhecimento. Agora vomitam as enciclopédias, como sempre nestes casos, encómios do mais untuoso que se pode esperar. Que foi ignorado em vida, que os críticos assobiaram para o lado, mas que sempre esteve consciente do seu incomensurável talento. Um homem nascido antes de tempo, assim costumam falar as mulheres-a-dias de serviço. Depois da porcaria feita, alguém que limpe a casa.
A ignorância devia ser pecado mortal. Não é por ninguém crer realmente em pecados mortais, ninguém crê de verdade na imortalidade, ninguém espera de facto o Paraíso à porta da morte. É preciso ter uma grande lata para querer entrar no céu. Acrescentam as domésticas o reconhecimento póstumo, os elogios que o apanharam já na esquina do esquecimento. Ai a posteridade, a posteridade… Largos são os lábios da posteridade. Portanto, como Nietzsche, já diagnosticado de loucura, empurrado para a fatal agnosia: um dia compreenderão a minha voz. Por enquanto, faltam-nos ouvidos. Andam ocupados com outras músicas, músicas efémeras, imediatas, consoladoras, e delas se alimenta quem na vida foge ao sofrimento do desamparo, caminhando solitariamente para um abismo de indiferença. Y así, Ramos Sucre ya no podrá, como escribiera en su poema «El maldito», escapar de los hombres hasta después de muerto.
Que depois de morto lhe valha a vitória, ao maldito, herói deste tempo amesquinhado nas primeiras páginas da futilidade. Tragam aos escaparates a luz das litanias, saberão os comensais usufruir dos vossos conselhos. A caixa registadora aí está para confirmar o sucesso garantido das opções, o povo vai que nem carneiro atrás do bastão crítico dos pastores, são mais papas que o Papa, mais padrecos que o prior da Sé. Daí que me pareça muito máximo o aforismo de Baudelaire: «Ser um homem útil pareceu-me sempre algo de muito hediondo.» Porque ser útil mais não é do que prestar vassalagem à distracção, ao desvio melindroso das opções seguras, sem risco, meramente convencionais e previsíveis. A ninguém se pede o dom da futurologia, mas é no mínimo legítimo esperar que não andem todos com o cagalhão na tola a repetir enfatuadamente os mesmos títulos, as mesmas personagens, as mesmas capas, os mesmos editores.
A quem devemos o obséquio de tanta concordância? A quem devemos tanta coincidência omnisciente? Ninguém, entre vós, para fazer o papel de São Francisco de Assis? Pode ser que daqui a uns anos, já mortos, alguém como eu ignore os vossos nomes. E mais uma vez pense blá blá blá para o discurso dos heróis da indiferença. Pobres desgraçados, em vida uns andrajosos, em morte uns condecorados. Esperemos que nas avenidas nubladas do céu brilhem então suas medalhas penduradas como sinais: olhem para mim, andei por lá a comer raízes, agora estou farto de louvores. Vãs esperanças. Aos mortos nada se acrescenta, bom mesmo é que os esqueçam de uma vez por todas para que, lembrando-os tão frugalmente, não voltemos a sentir vergonha da nossa estúpida existência. Porque é isso que deve sentir quem lembra los críticos de su época, uns papa rissóis tão ao serviço da mercantilização do saber como as fotocopiadoras do Staples.
Da base desta política existencial brotam os caules dos abetos. Enraízam-se no estrume como o mal no sangue. É deles que surge o mais ignóbil dos mitos. Veja-se esse malogrado Sucre, apenas um entre tantos, perseguido pelas insónias como Lucky Luke pela sombra. Uma diferença os distingue: o primeiro foi menos lesto. A História reservou-lhe um lugar, tépido lugar, um lugar que a vida teimou em usurpar-lhe. Não lhe concederam o consolo do reconhecimento. Agora vomitam as enciclopédias, como sempre nestes casos, encómios do mais untuoso que se pode esperar. Que foi ignorado em vida, que os críticos assobiaram para o lado, mas que sempre esteve consciente do seu incomensurável talento. Um homem nascido antes de tempo, assim costumam falar as mulheres-a-dias de serviço. Depois da porcaria feita, alguém que limpe a casa.
A ignorância devia ser pecado mortal. Não é por ninguém crer realmente em pecados mortais, ninguém crê de verdade na imortalidade, ninguém espera de facto o Paraíso à porta da morte. É preciso ter uma grande lata para querer entrar no céu. Acrescentam as domésticas o reconhecimento póstumo, os elogios que o apanharam já na esquina do esquecimento. Ai a posteridade, a posteridade… Largos são os lábios da posteridade. Portanto, como Nietzsche, já diagnosticado de loucura, empurrado para a fatal agnosia: um dia compreenderão a minha voz. Por enquanto, faltam-nos ouvidos. Andam ocupados com outras músicas, músicas efémeras, imediatas, consoladoras, e delas se alimenta quem na vida foge ao sofrimento do desamparo, caminhando solitariamente para um abismo de indiferença. Y así, Ramos Sucre ya no podrá, como escribiera en su poema «El maldito», escapar de los hombres hasta después de muerto.
Que depois de morto lhe valha a vitória, ao maldito, herói deste tempo amesquinhado nas primeiras páginas da futilidade. Tragam aos escaparates a luz das litanias, saberão os comensais usufruir dos vossos conselhos. A caixa registadora aí está para confirmar o sucesso garantido das opções, o povo vai que nem carneiro atrás do bastão crítico dos pastores, são mais papas que o Papa, mais padrecos que o prior da Sé. Daí que me pareça muito máximo o aforismo de Baudelaire: «Ser um homem útil pareceu-me sempre algo de muito hediondo.» Porque ser útil mais não é do que prestar vassalagem à distracção, ao desvio melindroso das opções seguras, sem risco, meramente convencionais e previsíveis. A ninguém se pede o dom da futurologia, mas é no mínimo legítimo esperar que não andem todos com o cagalhão na tola a repetir enfatuadamente os mesmos títulos, as mesmas personagens, as mesmas capas, os mesmos editores.
A quem devemos o obséquio de tanta concordância? A quem devemos tanta coincidência omnisciente? Ninguém, entre vós, para fazer o papel de São Francisco de Assis? Pode ser que daqui a uns anos, já mortos, alguém como eu ignore os vossos nomes. E mais uma vez pense blá blá blá para o discurso dos heróis da indiferença. Pobres desgraçados, em vida uns andrajosos, em morte uns condecorados. Esperemos que nas avenidas nubladas do céu brilhem então suas medalhas penduradas como sinais: olhem para mim, andei por lá a comer raízes, agora estou farto de louvores. Vãs esperanças. Aos mortos nada se acrescenta, bom mesmo é que os esqueçam de uma vez por todas para que, lembrando-os tão frugalmente, não voltemos a sentir vergonha da nossa estúpida existência. Porque é isso que deve sentir quem lembra los críticos de su época, uns papa rissóis tão ao serviço da mercantilização do saber como as fotocopiadoras do Staples.
0 comentários:
Enviar um comentário