terça-feira, 28 de dezembro de 2010

AS FOTOCOPIADORAS DO STAPLES


Ensinaram-me que ser católico só traria vantagens. O paraíso após a morte, confessados todos os pecados. Um futuro risonho à minha espera. E nem preciso que seja virgem. Em Terra, ser crápula pouco vale. Posso atirar a primeira pedra, esperar que faça ricochete, posso cuspir contra o vento, posso até cobiçar a mulher do próximo… só tenho que ser, como Arturo, mais veloz que a morte. E o meu guia espiritual bem alvitrou: olha que a cristandade começa no reconhecimento do pecado. Reconheço, Senhor, todos os meus pecados, reconheço que meto frequentemente o pé na poça, que a toda a hora conspurco o meu nome e o nome dos demais, reconheço, Senhor, o quão péssimo exemplo sou para os vindouros, reconheço-o arrependido porque estou consciente de todos as minhas transgressões. Aceita o meu arrependimento, aceitarei o teu éden.

Da base desta política existencial brotam os caules dos abetos. Enraízam-se no estrume como o mal no sangue. É deles que surge o mais ignóbil dos mitos. Veja-se esse malogrado Sucre, apenas um entre tantos, perseguido pelas insónias como Lucky Luke pela sombra. Uma diferença os distingue: o primeiro foi menos lesto. A História reservou-lhe um lugar, tépido lugar, um lugar que a vida teimou em usurpar-lhe. Não lhe concederam o consolo do reconhecimento. Agora vomitam as enciclopédias, como sempre nestes casos, encómios do mais untuoso que se pode esperar. Que foi ignorado em vida, que os críticos assobiaram para o lado, mas que sempre esteve consciente do seu incomensurável talento. Um homem nascido antes de tempo, assim costumam falar as mulheres-a-dias de serviço. Depois da porcaria feita, alguém que limpe a casa.

A ignorância devia ser pecado mortal. Não é por ninguém crer realmente em pecados mortais, ninguém crê de verdade na imortalidade, ninguém espera de facto o Paraíso à porta da morte. É preciso ter uma grande lata para querer entrar no céu. Acrescentam as domésticas o reconhecimento póstumo, os elogios que o apanharam já na esquina do esquecimento. Ai a posteridade, a posteridade… Largos são os lábios da posteridade. Portanto, como Nietzsche, já diagnosticado de loucura, empurrado para a fatal agnosia: um dia compreenderão a minha voz. Por enquanto, faltam-nos ouvidos. Andam ocupados com outras músicas, músicas efémeras, imediatas, consoladoras, e delas se alimenta quem na vida foge ao sofrimento do desamparo, caminhando solitariamente para um abismo de indiferença. Y así, Ramos Sucre ya no podrá, como escribiera en su poema «El maldito», escapar de los hombres hasta después de muerto.

Que depois de morto lhe valha a vitória, ao maldito, herói deste tempo amesquinhado nas primeiras páginas da futilidade. Tragam aos escaparates a luz das litanias, saberão os comensais usufruir dos vossos conselhos. A caixa registadora aí está para confirmar o sucesso garantido das opções, o povo vai que nem carneiro atrás do bastão crítico dos pastores, são mais papas que o Papa, mais padrecos que o prior da Sé. Daí que me pareça muito máximo o aforismo de Baudelaire: «Ser um homem útil pareceu-me sempre algo de muito hediondo.» Porque ser útil mais não é do que prestar vassalagem à distracção, ao desvio melindroso das opções seguras, sem risco, meramente convencionais e previsíveis. A ninguém se pede o dom da futurologia, mas é no mínimo legítimo esperar que não andem todos com o cagalhão na tola a repetir enfatuadamente os mesmos títulos, as mesmas personagens, as mesmas capas, os mesmos editores.

A quem devemos o obséquio de tanta concordância? A quem devemos tanta coincidência omnisciente? Ninguém, entre vós, para fazer o papel de São Francisco de Assis? Pode ser que daqui a uns anos, já mortos, alguém como eu ignore os vossos nomes. E mais uma vez pense blá blá blá para o discurso dos heróis da indiferença. Pobres desgraçados, em vida uns andrajosos, em morte uns condecorados. Esperemos que nas avenidas nubladas do céu brilhem então suas medalhas penduradas como sinais: olhem para mim, andei por lá a comer raízes, agora estou farto de louvores. Vãs esperanças. Aos mortos nada se acrescenta, bom mesmo é que os esqueçam de uma vez por todas para que, lembrando-os tão frugalmente, não voltemos a sentir vergonha da nossa estúpida existência. Porque é isso que deve sentir quem lembra los críticos de su época, uns papa rissóis tão ao serviço da mercantilização do saber como as fotocopiadoras do Staples.

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