quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

DESPREZAR O DESESPERO


Sucede que estamos a prazo. A certeza com que se nos apresenta esta fatalidade complica-nos as opções. Ou vivemos o que temos a viver rápida e intensamente ou prolongamos a agonia até ao limite suportável da resiliência.

Eu, em tempos idos, senti o romantismo das palavras de Novalis: «Não censures nada do que é humano; tudo é bom, embora não seja bom em todo o lado, nem sempre, nem para todos». Pobre Novalis, morreu novo, aos 29 anos, sem idade para descortinar a precipitação das suas palavras. Terá vivido rápida e intensamente? Foi apanhado desprevenido a meio do percurso?

Talvez o malogrado poeta não quisesse afirmar o que hoje nos parece mais claro, talvez houvesse nas suas palavras o desejo de uma nova cristandade fundada numa revalorização do homem à luz do idealismo heróico dos gregos antigos. Os idealistas alemães tinham manias dessas. Hoje, atiram-se aos porcos da Europa como hienas insaciáveis.

Bem vistas as coisas, vão conseguindo pela força da razão, a mesma que move, ordena e mecaniza os mercados, o que não almejaram pela força da coerção. Não deixa de ser irónico que assim seja. Eis o projecto humanista de Novalis. Ou então foi só uma coisa que lhe saiu, um dito espontâneo e imprevisto. Também de acasos se faz a história, sobretudo a que fica por contar.

Quem diria que por mero acaso estamos vivos? Quem ousaria dizer que por mero acaso estaremos mortos? Quem poderá algum dia garantir não ser esta vida a penitência a que a Natureza nos condenou? Interpretemos a fatalidade com um certo espírito de missão. O homem é a besta que se carrega a si própria. Contra isto, nada a fazer. Nada a censurar-lhe porque ninguém pode censurar à besta a sua natural condição de besta. Nasceu assim, assim há-de morrer.

Termos suposto em nós próprios a douta capacidade de nos metamorfosearmos em algo que transcenda a bestialidade foi, na mesma medida, uma necessidade e um encontro da consciência com as suas fragilidades. No fundo, o que distingue a selvajaria humana da savana é o cimento.

Ao longo dos séculos, alguns dos nossos, imbuídos de erudição e de boas intenções, foram impondo lenta e insistentemente a força da razão. Mas o que observamos é que a força da razão nunca deixou de estar subjugada à força coerciva da cupidez.

Ninguém pode negar que o mundo podia ser um lugar bem mais aprazível. Porque não o é? Porque nos veios da razão corre o sangue da bestialidade que nos determina ─ extinga-se o homem da terra e, com ele, a moralidade que o açaima.

Olhando para o globo de um modo lato, não restam dúvidas sobre a eloquência da moralidade: impor uma visão do homem ao mundo. É um erro de princípio. O mundo é que se nos impõe sem dó nem piedade.

Quem pode deixar de supor que as recentes revelações do WikiLeaks são apenas uma gota num vasto oceano de interesses poderosos com consequências devastadoras na vida das pessoas comuns? O que ali está em evidência é a inutilidade da moral nos corredores do poder. Mais do que isso, o que ali se torna evidente é que tudo o que é humano só é censurável por nos ser possível, a nós, humanos, censurar o que quer que seja; tudo o que é humano é discutível.

E nos corredores do poder, sobre um manto ilusório de democracia participativa, quem manda vai continuar a exercer o seu domínio sem qualquer tipo de preconceito moral. Porque o poder é, no limite, absolutamente amoral.

Vêm-me à memória as palavras de Alexandre O’Neill quando lhe perguntavam porque escrevia como escrevia: «Não sei… Talvez para tornar as coisas menos importantes. Nada tem importância. Tudo é humano…» A importância da importância é não ter importância alguma. Assim o homem e as suas opções: viver o que tem a viver rápida e intensamente ou prolongar a agonia.

Conclusão: afastar os medos, os fantasmas, exorcizar o corpo expurgando-o de tudo o que não seja puro e bom, desprezar o desespero. Não negar a besta que há em nós, aprender a sobreviver-lhe, desprezar o desespero. A mensagem de Jesus era boa, amar o próximo. Vê no que deu:

3 comentários:

Gil Maya disse...

Brilhante! Gosto da lucidez...
Continuação!

maria disse...

exactamente: a sua mensagem continua válida e actuante vinte séculos depois. ;)

abraço

hmbf disse...

Obrigado pelos comentários.