quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A FESTA


É muito positivo chegar a casa e ter a lareira acesa, dois ou três toros para aquecer os pés, uma garrafa de vinho tinto para acompanhar a leitura da Fome. É agradável sentir o aconchego das mantas quando o sono ameaça o cansaço. Dava tudo por dormir bem, acreditem. Nada há que me incomode mais do que esta falta de sono. Se pudesse, passava a vida a dormir com o Livro do Desassossego a servir-me de almofada. Ou então a olhar as minhas filhas enquanto dormem descansadamente, sem aflições nos sonhos, todos tão inofensivos que nos parecem impossíveis de sonhar. Eu só tenho pesadelos, normalmente acordado.

Sabe bem quando uma cliente nos reconhece e solicita um autógrafo, apertar a mão aos habitués e trocar dois dedos de conversa, beber o café da manhã enquanto aos ouvidos ressoam vozes do passado, ver sair os livros da nossa predilecção. Por vezes sinto o corpo sacudido por uma espécie de tremura, olho para o lado e julgo ver quem há muito não via, tenho visões, é uma coisa estranha que me sabe bem. Como quando sou assaltado pelos mortos, de leitura suspensa e olhos colados aos velhos que passeiam nas ruas o tempo que lhes resta.

Gosto de olhar para o passado e pensar que, apesar de tudo, nunca sofri acidentes graves. O mais grave de todos foi ter nascido, mas esse tenho eu de carregar às costas até que as costas deixem de me doer. É algo que sabe mal, este desconforto permanente das costas doridas. Uns dizem que é do sacro, outros da postura, sabe bem pressentir-lhes uma presciência que escapa às minhas dores. Não gosto de conduzir, mas acho piada às bátegas que escorrem no vidro do carro. Sabem bem.

Por outro lado, é muito desagradável esta insatisfação permanente, pensar que estou a passar ao lado da sombra, ver alguns amigos desesperados, em fuga, deixando para trás ficheiros ao cuidado de quem lhes queria mais do que pode. É mesmo um desastre ter-se nascido português, Ruy, nasce-se, de facto, em desvantagem. Mas sabe bem pensar que, apesar de tudo, ainda temos luz eléctrica e uma caixa de fósforos para os cigarros. Imperial, bebo a qualquer altura do ano. Sabe bem o gosto dessas coisas colado ao paladar, à língua que nos traz à página sempre que nos metemos a pensar no que sabe bem.

Mas façamos destas 21 horas a avenida de uma convalescença que se prolonga para lá da idade. A maioria das pessoas que observo, julgo, são felizes com uma casa apetrechada de electrodomésticos, uma Wii para o entretém, uma Bimby para a cozinha, um plasma para a cultura. E sonham com uma casa maior e com um carro melhor e com pouco mais sonham do que actualizar esses seus sonhos à medida da evolução dos modelos. A tecnologia produz esse efeito nas pessoas: sonham sempre com as mesmas coisas, mas de um modo actualizado.

Ora, eu prescindiria de tudo isso e tudo isso trocaria por silêncio, paz, sono, sete palmos de solidão onde enterrar o pastiche da alegria rotineira. O cais onde ancoram os dias é esta necessidade de nos predispormos ao que a época espera de nós: muito doidos no Carnaval, muito livres no Verão, muito solidários no Natal, muito contentes no Ano Novo, muito parvos o ano inteiro. Chega a ser agressivo sentirmo-nos desfasados da rotina, é como se houvesse entre nós e o mundo um desajustamento, uma incapacidade para a integração. Não é desalinho voluntário, é mesmo ficar aquém das expectativas.

Então procuramos enganar tudo e todos com o pouco que nos sabe bem, mesmo sabendo que aquilo que nos exclui da festa não é um excesso de tristeza. É apenas uma enfadonha ausência de alegria.
Ao alto: António Areal, s/título, 1966.

8 comentários:

Luis Eme disse...

um 2011 com muita inspiração, Henrique.

abraço

maria manuel disse...

pois, as insónias, as memórias do bom e do mau, as memórias do bom como âncora ou remos para o presente-futuro. depois, o "desajustamento" - chamo-lhe «inabitabilidade» -...

gostei muito do texto. e, não por formalismo, mas porque quero, deixo os meus votos de um Bom Ano.

abraço.

hmbf disse...

obrigados e igualmentes.

Amélia disse...

«É assim a vida.Mas não me conformo» - ouvido por Brenardop Soares e escrito no livro do esu e nossos Desassossegos...
Bom ano, Henrique! Um abraço

Amélia disse...

«é assim a vida- mas não me conformo»-ouvido na rua e escrito por Bernardo Soares no seu(e nosso) Livro de (todos) os Desassossegos

Bom dia, Henrique!

jaa disse...

Texto pouco animador mas sublime, hmbf. Bom ano - que consiga dormir e sofra de menos dores de costas.

hmbf disse...

Agradecido. Bom ano.

Anónimo disse...

En mi primer noche libre, luego de unos meses de trabajo agobiante, me encuentro con este texto. Brillante, HMBF, el talento sigue intacto!