sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

GRAMÁTICA DO TEMPO: TOPs


É tudo uma questão de coerência. Admito que alguém possa ser coerente na sua incoerência, mas nem por isso o padrão disfarça o espírito. A Perda de Auréola, de Baudelaire, começa com uma manifestação de espanto. Está em causa o lugar. Tu aqui? Num lugar reles! É como se alguém estivesse a apontar o dedo ao hipócrita. Então, andas a moralizar o mundo, a sublimar a realidade, a ver anjos onde os outros vêem sombras, e agora vejo-te no meio da lama. O acusado defende-se: «a minha auréola, num movimento brusco, caiu-me da cabeça no lodo do macadame». Culpa o trânsito, o movimento, a confusão, a agitação, as pressas, o fumo emitido pelas chaminés, a rotina, a produção em série. Percebemos nos interstícios da sua explicação o tubo de escape da máquina fabril, uma nova forma de escravatura emergindo no seio das sociedades ditas desenvolvidas, a cronometragem dos gestos, os horários, cada passo medido em função das circunstâncias, as tabelas, a hierarquização das forças no corpo produtivo, aquilo a que à distância de hoje chamamos revolução industrial, entretanto substituída por uma revolução tecnológica que não nos há-de retirar de onde sempre estivemos: o charco das justificações.

Primeira tarefa do dia: picar o ponto, chegar a horas para sair a desoras. Este anjo humanizado, antes de se afirmar semelhante a nós, simples mortais, entregue à crápula, vê na sua humanização um mal que vem por bem. Agora pode passear-se incógnito: «julguei menos desagradável perder as minhas insígnias do que partir os ossos»… a apanhar a auréola caída na lama. Para quê reclamar a perda? O remate é irónico: «a dignidade aborrece-me. E também penso com satisfação que algum poetastro a vai apanhar e cobrir-se com ela impudentemente». Diverte-se com o equívoco quem assim fala, mas o que não falta, ainda hoje, passados tantos anos sobre este extraordinário texto, é poetastros aureolados. Quem diz poetastros pode dizer muitas coisas, as actividades de um homem não determinam a gramática do tempo. Passa-se que a perda de auréola definha, como uma espécie de símbolo esbatido pela evidência, sob as palmas dos pés dos aureolados. As sociedades ocidentais sempre careceram de heróis, premeiam sazonalmente as suas esferas, fazem deste e daquele medalhado exemplo para os demais, não sobrevivem sem os seus homens do ano, figuras do ano, poetas do ano, livros do ano, filmes do ano, factos do ano, tragédias do ano, num contexto promocional que procura ser pedagógico, didáctico e, assim sendo, deformador do riso que não pode ser subtraído à vida.

Soldadinhos de trazer por casa, os fardados da sociedade servil alimentam-se de esperanças vãs. Com os prémios pendurados na parede e as insígnias espalhadas pela farda, talvez se julguem um pouco menos mortais. Mas a lama é gulosa e democrática, há-de absorver tanto o peso pesado como o peso pluma. Ganham, obviamente, a baba dos elogios e a massagem do reconhecimento fátuo. A perda de auréola no lodo do macadame industrial é um daqueles anúncios eivados de esperança vã, um pouco semelhante à declaração de morte que Nietzsche passou a Deus. O filósofo mediu o pulso à divindade e disse morto o Criador. No fundo, era essa a sua vontade. Mas o fundo não se reduz à vontade dos filósofos, por mais apreciáveis que sejam os seus decretos. Já o poeta mediu o pulso ao sublime e declarou a morte do Anjo, figura romântica por excelência de um elo à divindade que Baudelaire esperava desfazer de uma vez por todos. Cada qual, assim como muitos outros antes deles, nas vãs esperanças das suas ambições, sonharam mais do que puderam. De que lhes valeu a ousadia? Morreram miseravelmente, não menos miseravelmente terão vivido.

Quem olhar hoje para o mundo percebe que a ideia de Deus e de homens divinos, sejam eles heróis, anjos ou simplesmente ídolos, faz parte de uma mercantilização do estatuto que assegura a velha, mas sempre pertinente, dialéctica do senhor e do escravo. Os que estão por cima promovem a ignorância dos que estão por baixo, esperando muito serviço e pouca interrogação, procuram calar na raiz o desespero, dizendo que não vale a pena interrogar, questionar, espicaçar, insurgir-se contra a fatal organização do mundo. A submissão pode abrir caminhos que a insubordinação não desbrava. Se esperas ser reconhecido por mim, faz de forma a que as minhas expectativas não sejam defraudadas. É preciso pôr gosto na defraudação das expectativas, fazer da desilusão um prazer. Deus castiga os que não procuram ser senão anjos. Desejemos então o castigo, depenemos os anjos. Levante-se o réu, manda o juiz. Levante-se você, seu filho da puta, retorque João César Monteiro, espírito raro que perdeu na lama a auréola que uns poucos lhe recuperam. Aqui, agora, de vez em quando, prosando por vingança, seja nosso prémio o não sermos bajulados. De todos será o esquecimento. A Morte é, de facto, a única que a nada se reduz. Viver bem a vida pode ser não lhe dar utilidade alguma.

2 comentários:

sara rocio disse...

adoro a foto, já conhecia mas nunca mais a tinha visto. O texto vou guardar. :)

hmbf disse...

Já eu só guardei a foto :-)