quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O MILAGRE DA VIDA


Também podemos sentar os olhos sob a chuva que cai e fertiliza as terras. Por entre as nuvens negras surgem chamas de luz insistentes. Nenhuma nuvem é impenetrável. Como tudo, também as nuvens têm o seu tempo. As feridas que a lenha abre nas mãos, enquanto carregamos toros para atear o lume, hão-de sarar ao calor da labareda. Inútil é estarmos vivos e reduzirmos a vida a uma tabela de Excel, prospecções, números, estimativas. A ferida aberta é o lucro imediato do trabalho. Ainda que se anseie o esforço recompensado, a ferida aberta torna-nos claro o determinismo do sofrimento. Mas eu não troco nenhum desse sofrimento pelo desespero das tabelas, pela pressão dos resultados, pelo desespero atiçado pela frustração que é ver todo o esforço desvalorizado por não termos conseguido chegar ao surreal número das prospecções. A ferida aberta nos dedos é lucro imediato. Desde logo porque sei que nenhuma sondagem será realizada sob a inevitabilidade dos acasos e das contingências.

Por mais que pretendamos antecipar-nos ao tempo, quem ditará as regras será o tempo. E se o tempo diz “está mal” não vale a pena procurar contradizê-lo. Ele é que manda, nas páginas que a cada segundo das nossas vidas o tempo imprime vêm ditadas as casualidades que determinam as nossas vidas. É possível ludibriar o desejo impondo regras ao corpo, é possível iludir a fome com a saliva da esperança, mas não é possível burlar o tempo na sua indómita tirania. É ele que dita as regras. Nós limitamo-nos a andar, como marionetas, pendurados pelas linhas do clima. Estamos a prazo. As nossas regras nada impõem. Quando julgamos fintá-lo, ele compensa-nos com a morte súbita. Jogamos poker com o tempo, sabemo-nos sempre derrotados, mas insistimos, nesciamente, nessa partida infrutífera.

Ora reparem: uma vida entregue a prospecções, tabelas, números, estimativas… e subitamente o tempo passou por nós, não demos por nada, e perguntamo-nos: para quê? Fez batota? Não, a batota é a sua única regra. Agora, já velhos, não chegaremos ao horizonte perdido, não atravessaremos o Estreito de Bering. Com sorte, desapareceremos antes da nossa hora. Morte súbita, repentina, não daremos por nada, nenhuma tabela nos salvará o miocárdio, acidente vascular cerebral, pum!, súbita e repentinamente, tão novos que éramos, tão velhos que somos, foi-se, kaput, agradeçamos a vida às tabelas do Excel.

Robert Louis Stevenson, apologista do ócio, dizia: «Os livros são úteis à sua maneira, porém um substituto bem pálido da vida». Este ser útil à sua maneira tem que se lhe diga. Pode ser degrau, suporte, mercadoria, acendalha, rascunho. Qual vida? Tudo o que existe é útil à sua maneira e a vida não é excepção. Por comparação à vida, os livros são apenas objectos inerentes à passagem do tempo. Quais livros? No Shangri-la, horizonte perdido, arqueólogos, historiadores e alpinistas, satisfazem as suas vidas penetrando cavernas há muito inabitadas. Nelas descobrem escritos antigos, recuperam os escritos, refazem lendas, revivem o passado. Nas cavernas do mercado moderno, também os homens satisfazem a vida, as suas vidas, desabitando as suas próprias existências. Agem como se não existissem. E, de facto, não existem. São tão-somente mecanismos mensuráveis, máquinas de esforço. Ao contrário dos livros, a pálida vida dos homens das cavernas resume-se a isto: ver o tempo passar, chegar a velho sem dar por isso, olhar para trás e indagar: a ausência subtil da vida.

Por onde anda a vida? Que é feito dela?

«Nas suas páginas, a vida é terrivelmente clara», dizia Pavese. Nas páginas dos livros a vida vem disfarçada, pálida, isso mesmo. Mas nas suas próprias páginas ela é terrivelmente clara: uma aventura perdida, útil à sua maneira. O milagre da vida é estarmos vivos. Aproveitemo-lo, de preferência vivos.

3 comentários:

Mariana disse...

Gostei muito de ler isso, veio ao encontro de inquietações que andam a me rondar nos últimos tempos, mas que, justamente por seu caráter de inquietação, nem sempre é fácil, no calor da hora, encontrar um contorno, algo que vislumbrei neste texto.

hmbf disse...

Obrigado.

frliluftogvind disse...

Numa tarde de Agosto passado, quando os quatro cilindros da velha bm deixaram de assobiar, fiquei na beira da estrada na Fonte Longa a olhar os pinhais da Costa dos Cabos, a memória do que tens escrito e as terras que descem para sul. Ao longo do mundo sinto saudade da luz dali e daquele vento desencabrestado que desce as Alcobertas à tarde. Ao longo do mundo vou abrindo o teu blog, havendo três que li até ao primeiro post; o teu foi um deles. Lia um dia destes o bom conselho que só pode ser de amigo, do Caminhante Solitário. Ser caminhante é bom, e solitário pode ser o melhor, quando a companhia é pior que o desejável.

Em outro tempo entrava pela Gansaria, pelas estradas de terra, até ao pinhal da Costa dos Cabos. Por ser leitor enveredei pela vida dos pinhais, feijões com toucinho ao lume numa caldeira escarvunçada, e pelo moto-serra. E pelo machado. Como compreendes, é desse músculo de rapaz que te escrevo, não do intelecto de homem mais velho que tu. Deitava-me vestido e insone, e à luz do «pitromax» lia pela noite fora em casas e barracões poeirentos por terreolas. Por vezes infestados de pulguedo mordaz, se o cabrejo o a canzoada dormiam por perto. Sentia-me ali feliz a salvo do mesmo país de ranhosos que vejo pouco, mas que vejo ainda quando escreves as cartas ao camarada Van-qualquercoisa; que a isso Primo Levi não chamaria um homem. O mesmo escarro de Boliqueime na retina de um povo. Tudo era aquele e sempre o mesmo calculado putedo de sentimentos «metálicos». Que mercantilizariam as próprias bordas à mãe para as vender em almôndegas nos talhos das superfícies. Porque tudo queriam frio. E tudo brilhava como seara de girassol plantada ao lado de uma cimenteira.

Li o blog da frente para trás. Ou seja, quando dei pela qualidade da coisa, andei para trás para confirmar. E o que aí tens escrito é mais que a escrita de um escritor. Abro blog ao longo do mundo e há conforto nisso. Conforto em ver que existe gente saudável, de cerne sólido, como os pinheiros da Costa dos Cabos: veia escorreita e antiga. Vejo a linha de Camus «Je me révolte, donc nous sommes». E a citação de Koestler, no Arrival e Departure, aquela fala de Cirano «C’est inultile. Je le sais. Mais on ne se bat pas dans l’espoir du succès.» A antologia do que não será esquecido.

E há dois dias, ao entrar num alfarrabista a veneranda senhora, loira que me guarda os livros que sabe que eu aprecio, ajudou-me a escolher um. Percorreu com o dedo frágil ao longo das estantes a antologia do que foi e deve ser lembrado, a antologia contra o esquecimento. E tinha-mo dado, isso garanto, se lhe tivesse contado o que escreves e o que te leva a escrever. Lá ficará naquele sítio de má-morte em frente dos sobreiros, a que chamamos Estanganhola. Um envelope de um alfarrabista de Oslo com uma edição antiga e bonita de Wilde. Impressa em Leipzig, com a promessa de melhor papel no futuro. Eram os anos a seguir à primeira guerra. Fica de um leitor anónimo como devem ser estas coisas, a partir do fim da próxima semana. Um dia quando escavar na Argentina ou Uruguai, ou num sebo brasileiro, alguma primeira edição de um dos teus favoritos, lá te deixarei outra coisa.

Começa o ano com a certeza que és a voz justa de muitos. Todos nós que te lemos por esse mundo fora só por te ler (e a gente como tu) devemos-te mais do que podes imaginar. Devemos-te aquele país imaginado dos caminhantes solitários, a volta ao mundo em poesia. Lemos não só o que escreves mas o que te levou a escrever; lemos que mesmo que algo escrito saia menos bem, o teres escrito por bem é teu. E desse teu fazemos nosso. E isso que te fará ser ainda novo no dia em que morreres de velho. O resto é pouco mais que acaso e circunstância.