quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

UMA PAUSA PARA CAFÉ


Façamos uma pausa enquanto nos empanturramos em açúcar. Numa mão o cálice de álcool, na outra o cigarro. Gorduras, dióxido de carbono, corantes e conservantes. O café, as vitaminas, um analgésico para as feridas da cabeça. As nossas crianças estão sujeitas a todo o tipo de viroses: a televisão, os jogos, a literatura barata, e nós preocupados com a vida saudável. Primam o pause por instantes, brevíssimos instantes. Pensem por um segundo na quantidade de árvores abatidas para que todos os presentes possam ser embrulhados. Ponderem os custos. O papel não cai do céu, valha-nos Deus, não medra nos campos como batatas. Pensem no lixo produzido, multipliquem o lixo produzido nas vossas casas por centenas de milhares de fogos num só país, estendam os vossos pensamentos a todo um continente, acreditem na fome que começa no Norte de África e se prolonga até Sul como um osso que nunca viu músculo. Parece demagógico pensar assim. De certo modo será. Pensamo-lo enquanto fazemos do nosso trabalho a satisfação consumista de todos nós. Não chegam as batatas para a fome, delas há que sobram para a obesidade.

Primam o pause por instantes, parem todos os veículos, carros, comboios, tráfego aéreo, marítimo, cargueiros repletos de lixo tóxico, petroleiros derramando crude pelas veias da Terra, a droga que nos traz o vento, a trovoada, a intempérie, o caos, o medo, um incêndio, sirenes, raios de meter respeito, tornados e tudo o mais que nos possa ser dito sobre o que está suspenso na nossa meditação diária, momentânea, na nossa necessidade de dizer, nem que seja por breves instantes: foda-se, perdido por cem, perdido por mil. Encham a boca com as gerações futuras, mastiguem bem o discurso das gerações futuras, e enquanto digerem as gerações futuras cubram de mimos as gerações futuras com consolas, bonecas, playstations, amarcordes e apocalipses. Encham de açúcar as gerações futuras, empanturrem-nas em gordura e sumos refrigerantes, agasalhem bem as gorduras com todo o tipo de agasalhos previamente testados no cachaço animal. As gerações futuras hão-de agradecer todas as espécies extintas. Há-de vir a ser muito agradável, nostálgico, elegíaco, poético até, recordar no futuro o presente como se fosse passado e dizer: naquele tempo havia mamíferos de todas as espécies.

A incongruência, o espírito selectivo, o homem a encontrar o cão numa esquina e a imitá-lo, desejando ser como ele: doméstico. Um pause por instantes, brevíssimos instantes. Apetece baudelairizar, enrolar um charro, entregar os nervos ao ópio, escandalizar o tempo, alargar os horizontes, esticar a corda, apetece meter um fim a esta angústia parva, hipócrita, demagógica, apetece adornar o texto com todo o tipo de considerações filosóficas, objectiváveis, reflexivas… Na verdade, apetece mandar a lógica às favas e repetir o ditame: «o haxixe, como toda as alegrias solitárias, torna o indivíduo inútil para os homens e a sociedade supérflua ao indivíduo». Ah, sim, ser-se um inútil para os homens e viver de alegrias solitárias, punhetar o espírito e fazê-lo às escondidas, melindrar a relação social com a nossa indisfarçável inaptidão, ser-se assim como que um tipo fora de tudo, muito crânio, retórico, engraçado, humorístico, fazer de tudo um acto de brincar, coisa fofa e sorrir de dentinhos à mostra, com a mão no ombro da desobediência, descansar para a fotografia com a postura do ídolo que nos imaginamos ser.

Basto-nos chegar ao café onde nos sentimos confortáveis e pensar naqueles a quem escapa tal conforto, desejar que todos possam um dia vir a sentir o prazer de beber um café em silêncio, folhear a Primavera de Bandini enquanto na rua chove torrencialmente sobre um inesperado incêndio. Desejar que um dia todos possam premir o pause para que nas suas consciências tenha a semente do bom tempo oportunidade de crescer e dela se fazer a árvore que nela já se antevê, por ciência e dedução. Assim é que, sabendo dos males que o mundo arrasta, nos deixamos arrastar por ele como se fôssemos um bem. Tivéssemos um pingo de vergonha na cara, de vergonha séria e desesperada, perceberíamos logo que de bem temos apenas o mais ninguém senão nós poder aperceber-se do mal que é. Porque o homem que se pense a si próprio outra coisa não poderá concluir sobre si mesmo: é mau, ignóbil, dispensável, inútil, não tem qualquer valor. Se está vivo é por acaso, se está por acaso é para que se faça disso assunto muito sério. Deixá-lo viver… pausadamente, de preferência, e iludido o suficiente para que desiludido não seja arrebatado pela morte.

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