Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: VENEZUELA


Pois bem, o que por aí se diz, e eu não pude confirmar, é que José Antonio Ramos Sucre nasceu em 1890 na cidade portuária de Cumaná, capital do estado venezuelano de Sucre. Descendente directo do revolucionário Antonio José de Sucre, um dos heróis da independência latino-americana, teve no berço aristocrático a possibilidade de ir um pouco mais além nos estudos. Entregue a um tio padre, cursou Filosofia, Direito, línguas e doutorou-se em Ciências Políticas. Apesar de formado em Direito, nunca chegou a exercer. O pai morreu-lhe aos doze anos. Dedicou-se ao ensino de História, Geografia, Latim e Grego. A inclinação para as línguas (dominava várias) permitiu-lhe trabalhar como tradutor para o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Venezuela. Começou a publicar ensaios e poemas nas revistas e jornais de Caracas, tendo o primeiro livro, Trizas de papel, aparecido apenas em 1921. Trata-se de um volume que reúne aforismos, artigos breves e poemas em prosa num só corpo. Praticante exímio do poema em prosa, nunca viu o seu talento reconhecido pela crítica oficial. Coube às insónias o trabalho de reconhecimento. Assolado pela ansiedade e pela depressão, procurava desviar-se do desespero fazendo longas caminhadas nocturnas pelas ruas de Caracas. Foi publicando a expensas próprias os seus livros. Além do supracitado, a sua obra resume-se a mais quatro títulos: Sobre las huellas de Humboldt (1923), La torre de Timón (1925), Las formas del fuego (1929) e El cielo de esmalte (1929). La torre de Timón (1925) recompila os dois primeiros livros. Admirado por um grupo restrito de leitores, embora influentes, José Antonio Ramos Sucre foi nomeado cônsul da Venezuela em Genebra no ano de 1929. A estadia europeia não foi fácil. As insónias agravaram-se, levando-o ao internamento em clínicas de Hamburgo e de Merano, na Itália. As terapias sucessivas mostraram-se ineficazes e a 18 de Março Ramos Sucre tentou suicidar-se com uma sobredose de barbitúricos. Mesmo assim o sono nada quis com ele. Reincidiu a 9 de Junho, falecendo 4 dias depois em Genebra. Sobre ele disse José Bento: «Com uma precisão de linguagem e uma ousadia singulares, o abandono das formas correntes da poesia do seu tempo, e não só no seu país, um entendimento fecundo da poesia clássica e um abrir de vias à poesia moderna, Ramos Sucre é uma presença insólita na poesia contemporânea de língua espanhola». Quem mais para nos levar à Venezuela?


ÓMEGA


...Quando a morte acudir finalmente à minha súplica e seus avisos me tiverem preparado para a viagem solitária, invocarei um ser primaveril, com o fim de solicitar a assistência da harmonia de origem suprema, e um alívio infinito fará repousar o meu semblante.
...As minhas relíquias, ocultas no seio da escuridão e animadas de uma vida informe, responderão do seu desterro ao magnetismo de uma voz inquieta, proferida num litoral despido.
...A recordação eloquente, à semelhança de uma lua exígua sobre a vista de uma ave sonâmbula, perturbará o meu sono impessoal até à hora de me sumir, com o meu nome, no esquecimento solene.

José Antonio Ramos Sucre, in Hífen ─ Cadernos Semestrais de Poesia, n.º 7, trad. José Bento, Maio de 1992, p. 75.

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