quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

WIKILEAKS


Aquela cena esquisita do Wikileaks anda a causar transtornos vários, polémicas muitas, esperanças vãs. Fala-se no fim de um império, mas o império ainda só sente uma leve comichão na virilha esquerda. Mais uma vez, vêm à tona teorias da conspiração, tramas dignas de uma telenovela de espionagem. Impressiona-me o tom das mensagens, a forma como este e aquele fala daqueloutro num meio diplomático que a gente, na nossa néscia civilidade, julga sempre mais formal do que na realidade é. São comadres pagas a preço de ouro, gente mexeriqueira e mesquinha na qual o povo deposita democraticamente a sua confiança. Estúpido povo. Isto devia merecer uma ruptura total. Para onde? Para quê? Não sei.

A malta tem fome, teme o desemprego, vê-se refém de um vencimento miserável que, ainda assim, consegue sustentar uma casa. Propõem-nos prémios de ouro: 75€ em troca de 12 horas de trabalho diárias. Uau! Uma alegria. Roubaram-nos a água, temos de pagá-la, vendem-nos luz e aquecedores, os electrodomésticos estão pela hora da morte, regressar a uma vida de cabana está fora de questão. Açambarcam-nos os filhos se os não mandarmos à escola. A vida das cavernas está fora de questão, está, está fora de questão. O Estado não deixa e faz frio nas cavernas. O ESTADO acabou com a escravatura para nos escravizar, digna e respeitosamente, sob o jugo de deveres e obrigações impostas à força de uma coerção psicológica até ver. Viva a Declaração Universal dos Deveres do Homem.

Um telhado e uma jaula de cimento, vista para a cidade, janelas e portas devidamente calafetadas. Se a canalização pinga, apela-se às sobras do condomínio. Vivemos condoída e serenamente submissos da ordem pública. Se a gente se liberta psicologicamente, logo vem a coerção física: a bastonada, grades férreas, etc & tal. Vale a pena possuir um cartão do cidadão? Para isto? Para ser governado por gentalha mexeriqueira que se banqueteia faustosamente enquanto autoriza torturas cegas, surdas e mudas? O regime que nos impõe este mundo é: espremer ao máximo, exigir o máximo em troca do mínimo. Vamos pingando o suco misericordioso do trabalho, movidos a chibatas anímicas.

O trabalho salva, diziam os nazis aos judeus em campo de concentração. O trabalho salva, repetem os governos aos seus escravos de trazer por casa em campo de centralização. E as vozes fazem-se ouvir da sua cavernosa dívida, têm um compromisso com a saúde dos mercados, não necessariamente com as pessoas, porque isso de viver e de se estar vivo é secundário, o que importa é manter os mercados saudáveis, evitar rupturas sistémicas, garantir os stocks. As vozes fazem-se escutar no seu modo cavernoso de falar, um modo cavernoso atapetado de vivenda, empalado de apartamento, uma coisa meio estranha, condomínio fechado em sociedade aberta: corte-se nas pessoas, salve-se o Estado, salve-se o Wikileaks e as embaixadas espalhadas pelo mundo, salvem-se as mexeriqueiras, atire-se para a fogueira o bode expiatório, o calão revoltado, o calão mole, o calão submisso e o outro também, em nome da boa diplomacia e da governança, em nome, como direi, da espiolhagem.

Salve-se o homem talentoso, o contorcionista, exímio no jogo de anca, na dança do vira. Salve-se o cata-vento, o hipócrita, o regimental, o porco e a pocilga, salvem-se o esquema e o sistema. Contra a indignação dos povos, marchar, marchar. «Toda a mais canalha vil, mercadores, vendilhões, que estão ganhando milhões com empregar um ceitil, têm toda a graça gentil para poderem roubar, podendo-se isto emendar com uns açoutes ou galés, porque assim em que lhe pês tenham menos cabedal.» Estou para aqui numa de remendar os joelhos, tão desesperadamente farto de andar contorcido. É preciso fazer qualquer coisa, há-de haver forma de minar a axiomática do poder, há-de haver forma de sabotar o sistema. Deixar os bancos em branco? Desistir? Passar-lhes um cheque careca? Partir? Mandas as urnas às furnas? Desistir?

3 comentários:

maria disse...

Na série dedicada ao Camarada Van Zeller de todos nós, o Henrique dizia que tem até vergonha de dizer quanto ganha.

Eu não tenho. São € 519,00, base. Isto é fazer qualquer coisa. Quem nos lê tem que conhecer estas bases e, a partir daí, imaginar como erguemos o resto da nossa vida.

hmbf disse...

480€

João Miguel Henriques disse...

Das opções sugeridas, sem dúvida que "partir". Mas se me arranjares uma AK47...