sábado, 8 de janeiro de 2011

COMO SE NADA FOSSE TUDO


Para o Amadeu Baptista.

Já deu para perceber que vivemos numa capoeira. Não somos propriamente frangos de aviário, vivemos numa capoeira. Perante esta constatação, resta-nos uma de duas hipóteses: levantar a crista e seguir caminho como se nada fosse, baixar a crista e deixar que dos ovos nasçam frangos já assados como se nada fosse. O segredo é sempre olhar para o mundo, para nós próprios, como se nada fosse. Esta postura tem, pelo menos, a virtude de nos dispensar daquela miserável atitude de quem se leva muito a sério, que é esquecer-se ou forçar ao esquecimento o facto claro e evidente de que estamos de passagem. Portanto, como se nada fosse, passamos um cheque sem cobertura à vida, pelos serviços prestados preenchemos o recibo verde não declarado, permitimos que a aflição nos acuda em tempos de morte, recordamos febrilmente as provações do passado e as presentes como se nada fosse, como se o futuro fosse já uma relíquia de trazer pelas feiras de velharias onde, ao fim de semana, passeamos os olhos.

Recordo-me agora de Omar, o senegalês que me apaziguou as mágoas durante os últimos meses que passaram. 13 horas por dia a vender estatuária proveniente das mãos dos artífices que, no seu país natal, desconhecem outra vida que não seja a de dar à madeira formas eventualmente apelativas aos olhos cultos do ocidente. Chegam-nos essas formas em contentores posteriormente distribuídos por feiras de artesanato, bancas improvisadas à beira mar, refúgios de um certo ar exótico que pretendemos imprimir à nossa pálida paisagem. Durante os últimos meses ouvia-o cantar, fui guardando esse canto num lugar da memória que é o mesmo onde guardo todos os bálsamos da alma. E certo dia paguei-lhe um café, meti conversa, falámos do lá e do cá, do Ramadão, do Natal, do cristianismo e do islamismo, da mãe de água, da menina que transporta ramos de lenha em fogo à cabeça, do leão, da tartaruga que dá sorte, do tempo que passa à semelhança dos rios que correm. Agora vai-se embora, provavelmente nunca mais o verei. Comprei-lhe um quadro, para poder olhá-lo sempre que o tal canto se esbater sob as trovoadas do esquecimento.

O Omar com a sua vida, nós com a nossa, somos todos, e os poetas mais que ninguém, como esses chindōgu de que falava a revista. Chindōgu: a arte japonesa de inventar utensílios sem qualquer utilidade. Ferramentas embaraçosas que o homem desembaraçou das amarras sociais da conveniência, da vantagem, do lucro, enfim dessa estúpida clonagem do sucesso que é o lucro que podemos espremer da utilidade. Note-se o paradoxo: ao associarmos o progresso ao desenvolvimento de gadgets que nos rentabilizem o tempo, esse eterno ditador ao qual temos vindo a tentar fazer frente desde tempos imemoriais, tornámo-nos escravos da produção desses mesmos gadgets. É simples: podemos ter 500 canais informativos disponíveis, mas o tempo de que dispomos para usufruir desses canais, porque eles precisam de ser pagos e nós precisamos de ganhar dinheiro para os pagar, permite-nos apenas usufruir de um ou dois. Temos as casas repletas de porcarias que raramente utilizamos. Tê-las ou não tê-las, seria igual ao litro. Mas já não nos chega um telemóvel que dê para comunicar, precisamos de um que dê para jogar. Um carro já não se limita a transportar-nos, é todo um veículo de ilusões sociais.

Perante este cenário, o poeta transformou-se num chindōgu, isto é, uma invenção cuja utilidade é não ter utilidade alguma. Italo Calvino, numa das suas cidades, dizia-nos que «tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal…» E a cidade infernal é, hoje em dia, a de toda uma geração que vai ter de medrar no estrume do arrependimento. Ou, como diria Polo, restam-nos duas opções: aceitar o inferno ou tentar reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar. Porque o inferno é crescermos na direcção de um lugar sacrificado em nome de tudo o que deploramos, é crescermos para a velhice a pensar no que poderíamos ter sido se à nossa volta as circunstâncias tivessem sido outras, é chegarmos a velhos e olharmos para trás como quem olha uma miragem, pensando que aos nosso filhos pouco mais restará do que habituarem-se a esta ideia de que por eles descurámos grande parte da nossa inutilidade. A não-utilidade não deveria ser graça e humor, deveria tornar-se a política essencial das sociedades desenvolvidas. Nela reside, adormecida, a salvação, ao passo que fora dela vamos sendo vigiados pela perdição do lucro, do sucesso e de um progresso que nos usurpa a vida em troco de nada. Um nada que é tudo, como se nada fosse.

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