quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

DESCOBRIR A FORÇA


Quantas vezes não é através dos actos aparentemente mais inúteis ou supérfluos que o homem descobre a sua força? ─ pergunta Ana Hatherly numa tisana. Actos aparentemente mais inúteis. Quem leia, julgará perceber, provavelmente porque a leitura não nos detém sobre as palavras; a leitura, toda ela, limita-se a usufruir das palavras. Um homem detém-se sobre as palavras quando pára e pensa, quando fica por ali à espera do comboio que não chega, para depois errar na carruagem, apear-se na estação incorrecta, retomar a marcha a caminho dos infindáveis desenganos que a vida nos guarda. O crítico das palavras não pensa, limita-se a ler. Falta-lhe tempo. Como pode alguém convencer-nos de que é capaz de pensar as palavras de toda uma vida numa leitura que lhe dura uma semana? Não interessa. O nosso assunto é outro: o que é um acto aparentemente mais inútil? Haverá actos mais inúteis que outros? Um acto aparentemente inútil é um acto que, ainda que pareça, não é inútil. Se não é, porque sentimos necessidade de sublinhar a sua aparência? Será assim tão importante para nós a aparência dos actos? O que é a aparência de um acto?

A aparência dos actos tem um valor indeterminável na organização mental que compomos do mundo. Um acto deve ser julgado em função dos motivos que o legitimam ou não, e esses serão sempre aparentes. Ninguém pode estar certo da sombra que subjaz às consequências. Se nos detivermos na ideia de “acto aparentemente mais inútil” podemos pensar em actos dos quais não dependa nada que seja indiscutivelmente essencial. Respirar não é um acto aparentemente mais inútil, na medida em que se revela indiscutivelmente essencial (sobretudo para quem sinta dificuldades respiratórias). É como comer. Não obstante, torna-se igualmente válido pensar que aquilo que contribua para uma respiração saudável também não pode advir de actos aparentemente mais ou menos inúteis. Entre produzir alimento e comer não existe nenhuma escala que discrimine a utilidade de ambos os actos. Dir-me-ão que actos não são acções e que acções não são actividades, falar-me-ão de acções inatas e outras, ditas adquiridas, em relação directa ou indirecta com as primeiras. Sugiro que atalhemos a dificuldade do raciocínio.

Se, aparentemente, respirar não é inútil, pode aquilo que nos ajuda a respirar melhor ser considerado de inútil? Ora pensemos na música. A música ajuda-nos a respirar melhor, até o tonto do Platão percebeu a importância dos fabricantes de flautas e dos flautistas na organização da sua enfadonha cidade ideal. Que tenha pensado em expulsar os poetas, mantendo por lá os mestres do ritmo e da harmonia, deve fazer-nos lembrar o que o próprio procurou resolver: «a fealdade, a arritmia, a desarmonia, são irmãs da linguagem perversa e do mau carácter». A solução parece estar em «procurar aqueles dentre os artistas cuja boa natureza habilitou a seguir os vestígios da natureza do belo e do perfeito», ou seja, aqueles cuja existência se resume aos sonhos húmidos de Platão. A única saída parece ser a das traseiras: A República diverte-nos e essa diversão faz da sua leitura um acto aparentemente mais inútil. Porém, sendo um acto aparentemente mais inútil ele ajuda-nos, de facto, como dizia Ana Hatherly, a descobrir a nossa força.

A nossa força transcende a aparência dos actos, ela enraíza-se numa necessidade: respirar melhor, trazer ao pulmão o ar que o distende e agiliza, propagar pelas células o deleite de se estar vivo, esse mesmo gozo que nos traz por pinças sobre a terra. Porque, dizemos, não está fácil suportar os espinhos, no pântano das obrigações enterram-se os sonhos, ficamos pelo pescoço, com um braço de fora suplicando socorro e, de quando em vez, o socorro lá calha, chega-nos de um poema, de uma canção, de uma imagem que incendeia a retina e nos rasura toda a teoria. A única teoria razoável, nestes casos, é a teoria da comoção: se causa calafrios, se arrepia, se incomoda, se te eleva os sentidos à condição da alma, é porque é bom, mesmo que te provoque sofrimento e dor e daquele desprazer que a gente sente prazer em sentir, porque é um desprazer que nos anuncia o que de mais precisamos ser lembrados: estamos vivos. Talvez a força venha do que é aparentemente mais inútil, conquanto o aparentemente mais inútil não seja, evidentemente, inútil. Ou como dizia o Sérgio Godinho na canção: Na vida real as aparências estão do outro lado do espelho, na vida real não me assemelho à simulação das evidências

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