Sábado, 29 de Janeiro de 2011

A VERDADEIRA POESIA



...Em poesia, vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento, do que expor o melhor programa de entreajuda social.
...Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias.
...É isso a transfiguração poética.
...O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias, que frequentemente são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo anti-social ou a-social, ele pode ser social.
...Para evitar a contradição relativamente a nomes actuais, prefiro escolher o exemplo de um artista criador, de um género muito menos puro que a Poesia, mas em relação ao qual há unanimidade de simpatia: Charlie Chaplin. Criou um tipo de vagabundo, chamado Charlot, nitidamente imoral. Pontapés, rasteiras aos polícias sempre que os encontra; escarnece de todas as autoridades, não trabalha. Se trabalha, parte tudo, engana o patrão, não respeita a mulher de outrem, é rapinante quando a ocasião se apresenta, é um não-valalor social e, contudo, ele teve uma tal influência, de tal modo reconciliou pessoas com a vida que o podíamos considerar um dos benfeitores da nossa época.
...Não tenhamos pontos de vista professorais sobre arte. Porque é que Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, personagens muito pouco recomendáveis do seu tempo, representam não obstante tantas coisas para nós e são de alguma maneira benfeitores?
...Não seguramente pela sua moral, mas por terem conferido um novo impulso vital, uma nova consciência.
...Por isso, em vez de os comparar a pregadores espalhando a boa ou a má nova, há que compará-los ao primeiro homem que inventou o fogo. Foi um bem, foi um mal? Não sei. Foi um novo começo para a humanidade. Uma sucessão de novos começos faz uma civilização. É isso também o que o poeta mais deseja, um novo começo, uma vitória sobre a inércia, sobre a sua, sobre a da época, sobre o entorpecimento sem fim dos reaccionários.
...Vemos assim que a poesia, mais do que um ensinamento, mais até do que um encantamento, uma sedução, é uma das formas exorcizantes do pensamento. Pelo seu mecanismo de compensação, liberta o homem da atmosfera viciada, deixa respirar aquele que asfixiava. Transforma um estado de alma intolerável noutro satisfatório. É, pois, social, mas de uma forma mais complexa e indirecta do que se diz.
...Sem o parecer, respondo desta maneira à pergunta: «Qual a finalidade da poesia?» ─ A de nos tornar habitável o inabitável, respirável o irrespirável
.


Henri Michaux, in Nós dois ainda, do ensaio A Verdadeira Poesia faz-se contra a Poesia, trad. Rui Caeiro, 2.ª edição, Bonecos Rebeldes, Maio de 2009, pp. 61-62.

4 comentários:

Mariana disse...

Muito interessante, há muitos pontos em comum com o que eu, modestamente, penso acerca do que se deve entender como social em poesia ou na arte, do seu poder transformador.

O trecho final, sobre a coisa do respirar, me lembrou esse poema do Mário Quinta, "Emergência", que tomo a liberdade de transcrever:

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
– para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

MORICONI, Ítalo (Org.) Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 117.

mp disse...

obrigada H, não tenho este livro do Michaux e em tão curtas linhas ele diz, no limite da palavra, tudo o que se pode dizer sobre poesia; ele que é um dos maiores purificadores ambientais; um incenso interminável____

_ disse...

lido sem ser lido-audível-dedicado;
é triste. lamentável.

hmbf disse...

cada qual sabe de si
e das suas razões