segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #2


Não tenho a certeza, mas julgo ter sido o Paulo Kellerman quem me falou deles pela primeira vez. São noruegueses e surgiram em 1992, no mesmo ano em que eu migrei para Lisboa à procura de me enforcar durante uma aula de Axiologia e Ética. Felizmente escapei ileso, tive o bom senso de faltar às aulas. Geir Jenssen, o homem por detrás da cortina, tocou com os Bel Canto e manteve projectos que raramente emergiram da obscuridade. A influência de Brian Eno é a mais evidente, mas como Biosphere Jenssen conseguiu uma identidade rara em projectos de música electrónica. Diria que os Biosphere estão para a música electrónica como Steve Reich para o minimalismo. Isto é uma coisa parva de ser dita, mas não me ocorre comparação alternativa. Shenzhou, o álbum de 2002, parte da música de Debussy para construir algo verdadeiramente hipnótico. As paisagens são ao mesmo tempo, e numa mesma escala, terríficas e serenas. É uma estranheza passível de ser sentida se acompanharmos um licor de castanhas com tostas imbuídas em azeite virgem. Aqui e acolá, ligeiríssimas variações sobre lençóis de música estática e repetitiva lembram-nos experiências tão enriquecedoras como um seixo deslizando sobre as águas de uma lagoa, uma pena de pombo levantada pela brisa, o vídeo da dança do saco de plástico em American Beauty. Às vezes, ao ouvir Shenzhou, lembro-me da poesia chinesa e da sua agradável monotonia. Mas depois o verde dos campos e o branco da neve transformam-se em barro e do barro surdem escorpiões sonâmbulos que espetam os ferrões em si próprios só para aquietarem os corações desassossegados. Deixo um pitéu de entrada:


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