sábado, 19 de fevereiro de 2011

HÁ UM MOMENTO DO SALTO AO QUAL DEVEMOS CHAMAR LEVITAÇÃO


Longe de ser uma questão pacífica, a problemática da inutilidade coloca-nos no centro de uma guerra universal: a guerra do homem com as razões da sua existência. Não foi por mero capricho que lhe dediquei alguma atenção n’O Meu Cinzeiro Azul. Referi-me, então, à poesia como «a quinta estação dos poetas, a estação onde o útil e o inútil se fundem num só lugar de resistência». Mas afirmei também, num tom claramente mais cínico, que «escrever poesia é tão inútil como mascar pastilha elástica, embora em ambas as acções as causas justifiquem por si mesmas as consequências». Se agora procuro esclarecer as intuições que um pensamento aberto, desorganizado e despreocupado produz, não é tanto para me justificar, ou estabelecer uma linha de pensamento objectivo, como é pelo gozo de prosseguir a viagem atribulada do próprio pensamento. E é nessa viagem atribulada que encalho numa conclusão de Charles Bukowski sobre o prazer da descoberta dos seus escritores favoritos: «era bom lê-los a todos. Faziam perceber que os pensamentos e as palavras podem ser fascinantes, apesar de inúteis» (Ham on Rye).

A ligeireza com que vimos recorrentemente decretada a inutilidade das palavras e do pensamento, assim como da poesia ou da generalidade das artes, não deve assustar os espíritos piedosos. Há nesta postura vários elementos que devem ser ponderados. De uma velha necessidade de apagar a auréola do génio que pesava sobre a cabeça dos criadores à mera pose com que se erguem modas e vanguardas, passando por um niilismo esclarecido e contraditório nos seus mais íntimos termos, podemos observar um pouco de tudo. A questão de fundo é sempre a mesma: como justificar o tempo de vida despendido na produção de uma obra? Tudo se torna mais simples se começarmos por perceber que não viemos ao mundo para justificar o tempo despendido a viver a vida, mas sim para vivê-la (mesmo que este vivê-la possa vir a significar abstinência, abnegação, suicídio). O desapego que muitas pessoas dizem sentir relativamente à vida, considerando-a, na mais radical das considerações, completamente inútil, não nos pode iludir quanto ao facto dessa afirmação só poder ser feita enquanto as pessoas estão, de facto, vivas. O mesmo vale quando esse desapego é aplicado, num contexto mais ou menos estético, mais ou menos provocatório, para sublinhar o tal lugar de resistência evocado na primeira das auto-citações que encimam este texto.

A gente apercebe-se do quão inútil é o sublinhado da inutilidade da poesia ao sentirmos o efeito que as palavras, arrumadas num poema, exercem sobre os nervos de uma alma humana. Sobre esse efeito poderemos apenas admitir a inutilidade que admitimos ao vento ou à chuva ou a uma trovoada, conquanto possamos entender que não está nas nossas mãos determinar o efeito produzido pelo vento, pela chuva ou por uma trovoada… nas nossas pobres almas. Num magnífico livro onde o problema da inutilidade aparece amiúde na sua mais eloquente forma, ou seja, a forma da essencialidade, J. M. G. Le Clézio lembra: «Os olhos das mulheres índias olham, semelhantes a pequenos golfos negros, luzindo calmamente a meio do rosto de bronze. Nunca eles se dilaceram para abrir as portas da alma. A alma é agora inútil, e os olhos já dela não precisam para se exprimirem!» (Índio Branco) Ao fim e ao cabo a questão que se nos coloca é precisamente a das expectativas, porque a utilidade ou inutilidade de uma coisa averigua-se sempre a partir da função que esperamos possa vir a ser a dessa mesma coisa.

Deste modo, cabe a interrogação: o que esperar da poesia e qual a sua função? O que esperar das artes e qual a sua função? Quando aqui chego, prefiro ser pragmático, só espero que faça de mim um homem melhor ao ajudar-me a respirar num mundo substancialmente poluído, sobretudo, por gente despreocupada e indiferentemente ofegante. Que mais posso eu esperar/exigir?


Nota: a fotografia ao alto é de Gérard Castello-Lopes e foi copiada do catálogo da exposição Oui/Non.

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