quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A LUA BRINCA, A LUA É SÉRIA


Este post é para a Maria João

Registe-se em acta que ao dia tantos de tal reuniram-se à Rua Chaby os poetas Jorge Aguiar Oliveira e Henrique Manuel Bento Fialho, a artista plástica Maria João Lopes Fernandes, a Senhora Dona Ana Alexandre, a gata Lua e o espírito de Paul Klee, em redor de uma mesa rectangular, ligeiramente inclinada nas pontas viradas para Sul, povoada por caril, couscous, vinho tinto e bons queijos. Ao largo, a gata, inebriada por cebolinhos trazidos de pújà, fez questão de ignorar os comensais, que discorreram sobre assuntos vários e de superior interesse tais como "a distensão criativa que logra enaltecer no mesmo palanque do versejo a inclinação decadentista daqueles para quem já está morto tudo aquilo que respira e o culto da graçola de pendor picaresco que tão bem convive com os velórios a céu aberto perpetrados pelos deprimidos da vida". Desde sempre em Portugal os bufões conviveram amenamente com a escola dos vencidos. Não consigo imaginar um Fialho ou um Albino sem um Junqueiro ou um Eça, e algo me diz que Camilo reúne um pouco de todos naquele linguarejo pendular que ninguém consegue muito bem definir. Bem, mas para que isto se perceba melhor, vou-me ao concreto: afirmei junto dos presentes que não me revejo nem numa poesia que revela uma atitude radicalmente pessimista perante as coisas da vida nem entrego os meus textos à circunstância lúdica, àquilo que alguns tenderão a chamar de brincadeira de mau gosto. Para brincar continuo a preferir a pilinha, e para pessimismos bastam-me os olhos. Preciso, pois, de uma escrita que escape a ambos tanto quanto ambos renegue, não no sentido de censurar (deixo tarefa tão dispendiosa aos tiranetes do literário), mas no sentido de ultrapassar as limitações que cada uma das posturas me coloca. Na verdade, e vou estando farto de o dizer, acredito num texto que me acompanhe na respiração, acredito numa linguagem que me ajude a respirar melhor e cultivo uma escrita tão despersonalizada quanto o carácter de quem possa às vezes sentir-se eufórico, noutras circunstâncias por terra, noutras ainda aéreo e quiçá à deriva como uma rolha de cortiça. Nunca tendi para as escolas e recuso-me a esforços de estilo. O meu estilo não chega sequer a ser diário, tem a volubilidade das horas. Cai para onde melhor lhe aprouver. No entanto, não faço disto um caso. De resto, às vezes também gosto de me rir. Mesmo a chorar. E, se bem me conheço, tenho dias em que as coisas me saem tão mal que nem a partir pedra eu me safaria. A minha onda, se me permitem o plebeísmo, caros leitores aristocráticos, é a do vai-se andando. Acho que o marasmo não se combate com mais marasmo, acho que devemos combater o marasmo, acho que devemos combater esta ideia de dever... Veja-se como tão facilmente somos capturados pelas nossas proposições. Não me exijam pessimismo até dar um tiro na cabeça, nem esperem de mim optimismo até me desaparecerem as olheiras. Isto pode resultar numa prática pobre, mas eu não escrevo para ser artista, muito menos escritor, quanto mais poeta, eu limito-me a escrever para ser gente. Digamos que se trata de um órgão do qual nasci privado e a todo o momento procuro conquistar. Não tenho, e já dei provas disso, nada de nada contra o lúdico. Antes pelo contrário. O meu amigo Nuno Moura saberá de quão desafortunados risos se fazem bailaricos de palavras. Ele brinca como ninguém do meu tempo, por isso já lhe chamaram tão nobres nomes. Dadaísta foi um deles. E o Jorge Aguiar que não me leve a mal esta capacidade de num mesmo saco eu conseguir carregar poemas de Ruy Belo e aves rapinas de Adília Lopes. Nunca gostei de fronteiras, compreendo que em certas circunstâncias um peido possa causar mais estragos que a seriedade de um tratado filosófico, mas o que importa, já dizia o poeta, não é a literatura, nem a crítica de arte nem a câmara escura, é pôr ao alto a gola do peludo à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo. Mas também perceber que neste riso não há nada de inocente, muito menos uma brincadeira de crianças.

3 comentários:

fallorca disse...

«...eu limito-me a escrever para ser gente. Digamos que se trata de um órgão do qual nasci privado e a todo o momento procuro conquistar.»
Seu sacana, dá cá um beijo!

MJLF disse...

que belo post... pois a Lua atacou o vaso de cebolinho quando conseguiu, não sei como chegou ao tôpo da biblioteca, derrubou-o no chão, trincou-o e ainda o vomitou pela sala; aquilo deve-lhe ter feito bem ao organismo, pois foi um serviço completo ;)
Saúde e continua a ser assim como és,pá
Maria João

hmbf disse...

Fallorca, não abuses :-))

Maria João, vou sendo.