terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

OS VERBOS


Conjugam-se os verbos na direcção do indefinido. O homem com frio sabe que a vitória será do cemitério, não precisava de ler Huidobro para o descobrir. Mais tarde ou mais cedo, todas as ambições, toda a esperança, todos os seus feitos, cada um dos seus movimentos respiratórios será puro esquecimento. Trá-lo-ão, quem sabe, pelas carteiras da memória durante uns anos, mas depois a pedra crescerá sobre o sopro como uma árvore desnudada. O homem com frio traz nos pulmões essa imagem, olha para os túmulos, para as campas, para as pedras tumulares como quem olha uma certa forma de esquecimento a irromper da terra na direcção do indefinido. O nada. Bem lhe podem garantir o contrário que ele não sai daquela sombra.

Mas pelo caminho conjugam-se os verbos. As mulheres pashtun cantam o amor como se estivessem a cantar a morte, cantam a necessidade do corpo sob a cama onde adormecem seus maridos, e olham à distância os amados proibidos sabendo que a distância está na proximidade do canto. Não é um lamento índio. Geronimo dizia: «Não posso acreditar que somos inúteis, de outra forma Usen não nos teria criado.» Talvez as mulheres pashtun concordassem, mas por certo acrescentariam à fé heróica de Geronimo a dor e o sacrifício a que se vêem involuntariamente votadas. Inúteis ou úteis, somos criados ou construídos, somos o que pelo caminho vai deixando rastro. E na perseguição do rastro andam os poetas, garimpeiros da beleza, e os pintores, os escultores, os bailarinos, os músicos, os cineastas, andam todos aqueles para quem estar não chega. É preciso respirar.

Curioso então que os verbos se conjuguem na direcção do indefinido. Para as mulheres pashtun, elas próprias «auxiliares úteis» dos homens que as tratam como camelos, cabras ou cavalos, o canto surge de uma necessidade desesperada do coração, fazem do seu canto uma entrega da respiração (sa), entregam-se ao canto por nele encontrarem porto de abrigo para a dor, por nele encontrarem uma segunda vida para os pulmões. É inevitável pensarmos em Henri Michaux, quando este dizia: «Qual a finalidade da poesia» ─ A de nos tornar habitável o inabitável, respirável o irrespirável. Mais do que uma Poesia fazendo-se contra a Poesia é nesta nobre finalidade que o homem com frio constrói o seu abrigo, aí se protege das intempéries entrando sozinho nelas para delas sair mais resistente.

A linguagem da respiração que se nos oferece pelo caminho é, claro está, a de «um não-valor social», mas é também a de tudo o que vale para e ao indivíduo na sua ontológica condição. Poderão confundi-lo com terapêutica da sensibilidade, eu prefiro julgar que se trata apenas de uma maturidade que se revela nas mais simples opções: deixar de agravar o insignificante e procurar cultivar, tanto quanto possível, a desimportância das coisas. Daí que todo o criador deva adoptar, como Bashô, o nome da mais inútil das ofertas que lhe fizeram. Em certos casos verifica-se uma agradável coincidência de factos, ele já não precisa de adoptar nada porque foi de baptismo que lhe deram o mais inútil dos nomes. Bastará dizê-lo, proferi-lo, com o respeito e a sagacidade daqueles que erram pelo mundo contemplando, buscando, encontrando a inutilidade do nome nas mais belas e inexprimíveis realidades. Uma palmeira, por exemplo.

1 comentário:

Mariana disse...

Texto instigante, pelo percurso que traça entre a poesia e um imponderável que me escapa, pois o cansaço também funciona como anestésico, e a leitura torna-se um pouco dispersiva. Mas captei o imponderável, e isso já é alguma coisa.

E captei especialmente isso: "deixar de agravar o insignificante". Venho me exercitando em cultivar a desimportância das coisas, e de muitas delas me curei. Numa aula de latim, a professora lançou o desafio de um provérbio: "Aquila non captat muscas". Lembrei dele agora, por puro acaso, a questão de voar alto... nas asas da poesia... e conseguir ver tudo à distância.

Belo texto.