Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

PÁTRIA

Não gosto da palavra «pátria», na Roménia foi apropriada por dois tipos de donos da pátria. Uns eram os senhores da polca, suábios, e especialistas da virtude nas aldeias, os outros eram os funcionários e os lacaios da ditadura. Aldeia-pátria enquanto culto da germanidade e Estado-pátria enquanto obediência acrítica e pavor cego da repressão. Ambos os conceitos de pátria eram provincianos, xenófobos e arrogantes. Pressentiam traição em todo o lado. Ambos precisavam de inimigos, julgavam com ódio, de forma generalizada e imutável. Ambos se sentiam demasiado superiores para voltar atrás numa sentença errada. Ambos se serviam da corja. As pessoas da aldeia cuspiam-me na cara depois do meu primeiro livro, quando me viam nas ruas da cidade - já não me atrevia a ir à aldeia. E na aldeia, o barbeiro comunicou ao meu avô, um homem de quase 90 anos na altura, que era cliente semanal dele havia décadas, que a partir daquele dia não lhe fazia mais a barba. E os camponeses da cooperativa de produção agrícola já não queriam ir no mesmo tractor ou na carroça com a minha mãe, castigavam-na nos infinitos milheirais, deixavam-na sozinha por ela ter aquela filha maldita. Por motivos diferentes, foi empurrada para a mesma solidão que eu em criança. E veio visitar-me à cidade, tentava não fazer acusações, no meio do choro, mas fazia-as ao dizer: «Deixa a aldeia em paz, não podes escrever sobre outras coisas? Eu é que tenho de lá viver, não és tu.» E os senhores do Estado arrastaram-me para um interrogatório, na cidade, e deram ordem à polícia da aldeia para trancar a minha mãe durante um dia inteiro na esquadra. Não me deixei influenciar pela minha família no que diz respeito ao que escrevia ou dizia publicamente. Não lhes dizia o que fazia e eles não faziam perguntas. Queria deixá-los de fora dos riscos que corria, cujo sentido eles não percebiam de qualquer modo. Mas foram enredados, pelas corjas da aldeia e do Estado, numa responsabilidade que não tinham. E eu sentia-me culpada e não podia mudar nada, não podia retirar nada, não podia retirar uma única palavra nem perante eles nem perante o Estado. Seria aquele lugar a pátria só porque eu conhecia a língua daquelas duas facções patrióticas? Era justamente por conhecê-la que as coisas tinham chegado a um ponto em que nunca mais quereríamos ou poderíamos falar a mesma língua. Os nossos conteúdos eram, mesmo na frase mais pequena, irreconciliáveis.

Herta Müller, da conferência Cada língua tem olhos diferentes (2001), in O Rei Faz Vénia e Mata, trad. Helena Topa, Texto Editores, Janeiro de 2011, pp. 28-29.

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