quinta-feira, 24 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #12


Em 1984 William Burroughs publicou um ensaio intitulado Electronic Revolution (A Revolução Electrónica, Vega, 1994), onde partilhava a sua filosofia da linguagem partindo de uma teoria de base: «a palavra escrita foi literalmente um vírus que tornou possível a palavra falada». Laurie Anderson pegou nesta doutrina patológica da linguagem e encenou-a num espectáculo que ficou registado no disco Home of The Brave. Convém esclarecer que se trata de uma banda sonora para um filme montado em torno da tournée do disco Mister Heartbreak (1984). No entanto, resultou num objecto singular e até algo desviado dos álbuns anteriores de Laurie Anderson. Na sua singularidade, Home of The Brave acabou por ser vítima de uma incompreensão que hoje, à distância de 25 anos, pode e deve ser sanada. O que escutamos neste conjunto de canções é uma manipulação de sons respeitadora de algumas técnicas predilectas do autor do romance The Naked Lunch. Não por acaso, a voz de Burroughs aparece logo deformada num dos temas iniciais (Late Show). Language Is a Virus não engana. Anderson recorre ao cut-up, num trabalho de colagem que mistura línguas e registos vocais sob o domínio dos sintetizadores, para nos oferecer paisagens dinâmicas e justapostas. Não importa tanto reflectir a realidade como simulá-la nas suas dimensões mais variadas. Daí que a música nos soe tão estranha quão sedutora. Foi exactamente o que senti quando assisti a um espectáculo de Laurie Anderson numa inacreditável primeira parte de Bob Dylan, já lá vão uns anitos valentes. Sedução e estranheza, isto é, espanto, algo sempre novo e não subjugado à monotonia dos dias. Vejam e escutem esta raridade.

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