domingo, 27 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #13

Os dois primeiros versos de Shahid 1, o tema que abre Spears Into Hooks (1999), são sintomáticos dos tormentos que atravessam todo o trabalho de Meira Asher: «another religious boy again, does another act of a saint / bus, bike, boat or by feet, shahid drives a holy dead beat». Israelita, Asher não poupa nas palavras nem nas imagens. Nas suas canções encontramos excertos de textos hebraicos tradicionais misturados com discursos nazis; relatos de crianças palestinianas, sobre os efeitos na carne das balas disparadas pelo exército israelita, ao lado de testemunhos de sobreviventes ao holocausto; evocações de Primo Levi (“se questo é un uomo”) e a voz de Eichmann... A pergunta já não é sobre a possibilidade da poesia após o holocausto, mas sim como ainda foi/é possível Sarajevo, Ruanda, Palestina após o holocausto? Parece haver na natureza humana uma insanável e insuperável tendência para a violência, manifestada em exercícios coercivos de soberania, guerras, invasões, com objectivos políticos sempre obscuros e, de certa forma, incompreensíveis aos olhos de quem tenha uma perspectiva humanitária do ser humano. Esta música sublinha a natureza vampírica dos homens, tão bem filmada por Abel Ferrara no filme The Addiction (1995). A religião já não é solução, tendo-se tornado parte substancial do problema. Meira Asher socorre-se de variadíssimas combinações sonoras para exprimir de forma expressiva esta dimensão alienante do real. A referência mais incontestável será Galás, mas o satanismo da grega não encontra abrigo nas dúvidas metafísicas que tingem a musicalidade da autora de Vio Smear. Em vez de crucifixos invertidos, o álbum de Meira Asher ostenta na contracapa uma andorinha crucificada. As vozes que ressoam e gritam sob ruídos e programações minimalistas são ecos que anunciam a continuidade do crime. Estejam atentos. Não sugiro a audição/visão deste vídeo a pessoas mais susceptíveis.

3 comentários:

manuel a. domingos disse...

esta senhora foi à Guarda. ainda não havia o TMG. foi no auditório da Câmara Municipal, acho eu.

não fui. na altura achava a música dela muito "esquisita". hoje, acho uma bomba! (sem piada)

Tuca Zamagna disse...

Não conheço o trabalho de Meira Asher, mas este teu ótimo artigo me atiçou a curiosidade. Vou tratar de ouvi-la.

Um abraço

hmbf disse...

Olhem, para ser sincero a Meira dá-me tesão.