quarta-feira, 9 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #5


Perante a união de dois monstros pouco mais há a esperar do que uma monstruosidade. Assim aconteceu em 1990, quando John Cale (ex-The Velvet Underground) se uniu a Brian Eno (ex-Roxy Music) para a concepção de Wrong Way Up, um conjunto de canções de inclinação pop que escapam à brancura detergente da maioria das composições do género. Sem desprimor para os diversos intervenientes, trata-se de um álbum alicerçado nos sintetizadores e nas primevas experiências electrónicas levadas a cabo pelo autor de Music for Films (1978). Brian Eno, com uma carreira encetada ainda na primeira metade da década de 1970, encontra em John Cale o parceiro ideal para a realização de um objecto de inspiração wharoliana. No entanto, ao contrário do que acontece com a maioria das criações pop, Wrong Way Up resiste com impressionante robustez ao vírus do tempo. Não se trata de música descartável nem de sucessos imediatos, mesmo quando assim parece. In The Backroom, por exemplo, pode ser escutado ao longo dos tempos que nunca perderá o encanto inicial. O mesmo vale para temas como Cordoba ou Crime In the Desert. São composições onde a denominada música ambiente encontra na canção de inspiração urbana o parceiro ideal para uma viagem pelas pulsações de uma nova sociedade. Às portas do final do século XX encontrávamos em fila de espera o filão ansioso da tecnologia, deixando para trás, como coisa obsoleta mas reproduzível, a matriz orgânica de onde tudo partiu. Agora os arranjos faziam a diferença. As canções de Wrong Way Up recriam uma espécie de nostalgia do futuro sem verdadeiramente serem nostálgicas, permitem-nos conjecturar a possibilidade de um dia virmos a partir as paredes do universo. Têm no âmago a universalidade dos fenómenos indescritíveis e resistem a todo o tipo de definições.

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