quinta-feira, 17 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #8


Eis um objecto que tendo uns bons pares de anos, mais propriamente dezassete anos (foda-se, como o tempo passa!), nunca deixa de ser novo. Os Hedningarna surgiram no norte da Europa, mais propriamente na Suécia. Com uma música inspirada no folclore escandinavo, foram assumindo uma vertente mais roqueira ao longo dos anos. Trä, este extraordinário conjunto de canções vindas a lume quando o grunge de Seattle andava a provocar estiramentos nos corações adolescentes, causou um espanto ainda hoje contagioso. Dizem os especialistas que o título do álbum significa bosque. No entanto, não se trata de um bosque feérico habitado por seres ambivalentes, deuses e ninfas, gnomos e fadas. É um bosque terrivelmente humano. O segundo tema (Min Skog/My Grove), um dos mais poderosos do álbum, começa com uma motosserra a amputar o tronco de uma árvore, provavelmente centenária, provavelmente para ser transformada em pasta de papel. O álbum fecha com o som apaziguador de um riacho. Mas entre a motosserra e o riacho escutam-se cânticos medievos, vozes de inclinação gótica, iniciáticas, lamentações evocativas de uma chaga aberta no coração da Terra. Há momentos claramente exorcismantes que sugerem um culto, ou um ritual de entrega e de devoção telúrica que coloca no centro das atenções a mais essencial das verdades: nada neste mundo nos deve merecer tanto respeito como a força e o poder da Natureza. Uma música sugestiva, por vezes festiva, outras vezes melancólica, sempre inquietante. Subitamente vem-me à memória Ralph Waldo Emerson: «Para encontrar a solidão, um homem tem de deixar tanto o seu quarto como a sociedade. Quando escrevo ou leio nunca estou só, apesar de ninguém estar comigo. Mas se alguém quiser estar sozinho, que contemple as estrelas». O meu tema preferido é o nono, chama-se Tuuli. Tem por lá umas vozes índias (trata-se de Wimme Saari, que também colabora com Hector Zazou no excelente Chansons Des Mers Froides). Eu gosto muito de índios. Podem escutá-lo aqui. Já agora, não percam este cheirinho de uma actuação ao vivo.

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