domingo, 20 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #9


No dia 16 de Setembro de 2002 fui assistir a uma série de concertos designados de Looking For a Thrili. Não era necessário ter estado presente para perceber o que então se afirmou com uma clareza desarmante: aquilo a que chamamos vanguardas resulta, muitas vezes, da conjugação de interesses meramente acidentais que não obrigam a uma partilha ideológica única e estanque. Para o caso, bastava a existência de uma produtora discográfica, a Thrill Jockey, cujo toldo abrigava uma multiplicidade de músicos de interesse bastante variável. Fundada em 1992 na cidade de Nova Iorque, mas posteriormente deslocada para Chicago, a Thrill Jockey soube afirmar a sua identidade dando a conhecer bandas que concebiam uma música precipitadamente catalogada de post-rock. Como todas as etiquetas, esta serve para situar um conjunto de projectos com raízes no jazz, no rock de cariz progressivo e no advento da música electrónica. São estes os elementos fundamentais de uma música de fusão, quase sempre instrumental, que encontrou em nomes como Tortoise ou Trans Am rostos representativos de um género que nunca chegou bem a sê-lo. Músicos como John McEntire, Sam Prekop, Rob Mazurek, Douglas McCombs, entre outros, desdobraram-se em vários projectos tornando-se reconhecidos num meio sem programa definido mas com uma clara intenção: renovar a música jazz. Ao rock foram buscar a energia, mas dispensaram o minimalismo dos três acordes. Essa energia funde-se com estruturas musicais complexas, riffs rebuscados e uma vertente experimental, oriunda do electrónico Krautrock, com consequências deveras estimulantes. É o caso deste Utonian Automatic, dos Isotope 217º, produzido por McEntire. Os músicos são Jeff Parker, Rob Mazurek, Dan Bitney, Matthew Lux e John Herndon, todos eles com ligações aos Tortoise ou bandas congéneres. Sugiro que se escute esta versão ao vivo de Looking for life on mars e esta de Audio Champion. São temas representativos de um tipo de som sem fronteiras nem cedências à facilidade. Permitam-me, no entanto, o parêntesis: alguns dos projectos mais interessantes deste território, porventura menos conhecidos, não estão directamente relacionados com os ambientes culturais supracitados. É o caso dos escoceses Ganger ou dos Slow Loris. É assim com tudo na vida.

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