quarta-feira, 16 de março de 2011

O NOVO E A NOVIDADE




Os índios que J. M. G. Le Clézio caracteriza em Índio Branco ignoram a arte ocidental, nada sabem da nossa poesia e da sua história conflituosa: «Aquilo que o Índio na verdade ignora, aquilo que achou inútil, é a arte. (...) O Índio sabe que o mundo não é explicável, que não é convertível.» Eles vivem a poesia quotidianamente, não precisam de metrificá-la, de pensá-la, podem tatuar na própria pele a respiração do mundo, não precisam de lapiseiras nem de árvores mortas para afirmar a beleza do universo. Estranha contradição, esta de estarmos dependentes de uma horrorosa actividade destrutiva para a inscrição de um pensamento, de uma atitude, de uma ideia. A natureza sofre as consequências do nosso desespero. Na geografia industrializada que deforma os homens ocidentais, estas ferramentas − a lapiseira, o papel − revelam-se fundadoras de uma afirmação e de uma respiração ameaçadas pelo tempo. É a consciência interna de uma falta, de um erro, de um defeito, que nos leva a registar a passagem pela Terra. A utilidade da arte prende-se a esse defeito.

Hoje em dia os nossos poetas podem dizer: «A poesia é inútil, como se sabe. Isso agrada-me. Há uma inutilidade útil na poesia, isto é, uma ética, que continua a interpelar-me. O poema não tem «lugar»» (Luís Quintais, Agio). Ideias simpáticas, porém autofágicas. Já anteriormente vimos que a lógica obriga a que uma inutilidade útil não possa ser reduzida à mais fraca das suas condições. Se é inutilidade útil, é útil. Logo, não é inútil. Esta inutilidade útil da poesia, ou utilidade inútil da vida, é o grande paradoxo com o qual todo aquele que cria tem de aprender a viver. Criar, como também já vimos, não deve ser entendido no sentido presunçoso que é o de tentar fazer crer na possível produção de algo absolutamente original. Originais são as estrelas, que estando vivas não deixam de já estar mortas. A fenomenologia ensina que somos seres abertos ao mundo, em diálogo com o passado mas, também, em relação com o futuro. O nosso futuro é esse desfazer-se lento do presente, é cada segundo que conquistamos ao passado, e é nesse futuro que o novo se afirma.

Os índios de que J. M. G. Le Clézio fala nada sabem acerca do novo. Nós é que sabemos. Quando chegámos às Américas chamámos ao território de Novo Mundo, coisa nunca antes vista. O que é, então, o novo? O novo é tudo aquilo que é capaz de gerar espanto, capturar-nos da modorra dos dias, é tudo aquilo que nos surpreende. O novo é o Sol, que sempre ali esteve, e o mar, esse feroz e temível inimigo dos homens, é a trovoada que inspira medo, é, em última análise, a obra humana que nos deixa boquiabertos, sem fôlego ou em estado de levitação. Nesse sentido, o novo distingue-se da novidade. A novidade é um conceito puramente capitalista que perverte o novo. A forma mais eloquente dessa perversão é a balela dos novíssimos, uma aldrabice que outro intento não tem senão gerar interesse por algo que carece de identidade. A identidade conquista-se quando conseguimos escapar à novidade para nos afirmarmos pelo novo. No novo não existe intenção, existe crise. E essa crise é a da ruptura com as horas, com a modorra e a indolência dos dias. Ruptura não significa negação, significa interrupção.

Eu nunca vi uma coisa assim, dizem as pessoas quando questionadas sobre o temor causado pelo incêndio que devastou a serra ou o tornado que levantou as telhas. E, no entanto, coisas daquelas vão-se repetindo ao longo dos séculos em todas as partes do mundo. Ser exigente é buscar coisa nunca antes vista, algo que interrompa a modorra dos dias. Uma linguagem nova? Nada disso. Um manifesto estético diferente dos outros? Nada disso. Tudo isso está feito e refeito, já tudo foi escrito e, no seu tempo, Sófocles terá sido aos olhos de muitos um enfadonho déjà vu. Trata-se de conseguir tocar no mais inacessível lugar do ser humano: o lugar do espanto. E esse lugar, como é óbvio, é relativo. Uma coisa tanto pode causar espanto pela sua tremenda simplicidade como pela sua extrema dificuldade. Mas quando causa, gera uma ruptura, interrompe a nossa convicção de um mundo fastidioso. Uma ruptura do ser consigo próprio, uma espécie de incómodo, até insatisfação, algo inexplicável e que, por isso, se mete num poema. O que não causa espanto é a novidade, essa apenas subverte o novo, a novidade resulta de um discurso mercantilista e snobe, típico das sociedades de consumo e da sua avidez pela moda, pela última grande tendência, pelos heróis de pacotilha e pelos génios de latão. A gente relê Sófocles e sempre sente que há ali algo de novo, a gente passa os olhos por centenas de páginas vindas a lume recentemente e percebe que não há ali senão novidade. Tédio.

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