quarta-feira, 23 de março de 2011

UM BOM EMPREGO




Quando alguém se olha nas águas de um rio e não reconhece o seu próprio rosto, tende a culpar o tempo. Mas o tempo não tem culpa. Mais tarde ou mais cedo todos nós ficamos irreconhecíveis aos nossos próprios olhos. Uns dizem que é da sociedade, essa corruptora de homens, outros crêem ser da idade. Há também quem julgue tratar-se de ilusão de óptica ou de alucinação, mas a verdade é que nenhuma deformação do rosto se afirma tão peremptoriamente como esta. Não busquemos culpados para a queda. O desamparo é evidente, nada o pode evitar. E a culpa só tem uma fonte: a desgraça em que nascemos e o estigma da morte que vai corrompendo a pele, como uma tatuagem estendendo-se pelo corpo, à medida que tomamos consciência da nossa inutilidade. Manuel Laranjeira, malogrado poeta e pensador inquieto, dizia que «um minuto de vida bem empregada vale mais do que a eternidade da vida inutilmente vivida». É uma frase de belo efeito que nada resolve. Leva-nos a questionar a pertinência do raciocínio que nela reside adormecido. O que é empregar bem a vida? O que é uma vida inutilmente vivida? O que é a eternidade? Esteticamente irrepreensível, de uma perspectiva meramente técnica aquela frase nada diz que não possa ser considerado elementar e inútil. Talvez pretenda alertar-nos para o valor subjectivo de algo que podemos classificar de um bom emprego da vida. Empregar bem a vida. Fazendo o quê? Socorrendo a miséria alheia? Disfarçando a nossa própria desgraça? Fazendo simplesmente pelo prazer de fazer? Assunto sério e barbudo, com ecos longínquos, muito longínquos, naquelas primitivas tentativas de pensar o sentido da vida e a arte de viver. Temos por certo duas balizas: nascemos e morremos. Podemos ser indiferentes ao público, aos administradores do terreno em que jogamos as nossas vidas, podemos inclusive pensar que nada mais há do que esse campo onde, entre duas balizas, afirmamos a nossa existência. Uns batalhando, outros desistindo, outros fazendo da desistência uma batalha. Alguns tendem a olhar para tudo isto com indiferença, tanta quanto a ingenuidade que logo lhes descobrimos. Colocam-se na posição do roupeiro, fazem o seu trabalho e deixam-se arrastar pela contingência das emoções. Sou sensível a essas posturas. Por outro lado, penso que independentemente das funções estamos todos dentro do campo. No limite, é como se deixasse de haver jogador e empresário, roupeiro e técnico, presidente e director geral… A doença esbate as fronteiras que nos separam. Na cama, enfermos, somos todos igualmente frágeis. E a cagar somos todos igualmente ridículos. Portanto a questão é mais pragmática. Conscientes das balizas, procuramos a satisfação do tento. Um golo, o sucesso, a admiração e o aplauso, o reconhecimento. Em nome de quê? De uma necessidade que nos está nos genes. A necessidade de afirmação. Ela pode ser mais ou menos evidente, uns disfarçá-la-ão melhor do que outros, e poucos determiná-la-ão de modo exactamente igual, mas essa necessidade, intrínseca à natureza dos homens, move-nos para o abismo como a cegueira aos cegos de Brueghel. Será que empregar bem a vida é empregá-la no sentido da satisfação dessa necessidade? Todas as civilizações entenderam a gravidade desta questão. Por isso, apressaram-se a propor alternativas: a abstinência, a abnegação, a sabedoria socrática, não a consciência de uma infindável ignorância, mas o autoconhecimento e o autodomínio enquanto algemas da perniciosa paixão. Eu sempre tive para mim que o sábio não é aquele que domina as paixões, mas antes aquele que não teme apaixonar-se por se reconhecer derrotado à partida. Os homens apaixonados são perigosos, os devotos do corpo, os hedonistas, que mais não são do que cínicos sem espírito, são malignos, os epicuristas, plantas amenas de um jardim de delícias, são gente de quem devemos desconfiar e os estóicos, ainda que admiráveis, são pouco recomendáveis. O mesmo vale para os franciscanos, para os místicos, para os anacoretas e, sobretudo, para os poetas, herdeiros de uma estranha e inconformada lucidez que, com os tempos, se transformou na serpente que se devora a si mesma. Um minuto de vida bem empregada pode ser, pois então, esse minuto que dispensamos a tragar o vinho, a ejacular ou, simplesmente, a premir o gatilho que nos antecipa a morte. Dois dedos de conversa, talvez. O silêncio da escrita parece-nos sempre melhor. Evitamos as más companhias que nos fazem desperdiçar preciosos minutos. Preciosos são todos os minutos inúteis.



Ao alto: o rosto da mulher amada numa tela de Lucio Fontana. Dizem que foi vítima do Freddy Krueger.

3 comentários:

Mariana disse...

Curioso esse texto, o raciocínio, a coincidência de ter olhado hoje meu rosto e ter estranhado o que vi, certamente porque a vida tem andado excessiva.

A expressão "empregar bem a vida", ou o tempo, o que dá no mesmo, parece sofrer do vício capitalista em que tudo precisa ser otimizado. O que parece justamente preparar como emboscada esse estranhamento, pois a pessoa se perde de si.

hmbf disse...

Pois. O homem não nasceu para ser escravo dessa dinâmica «produzir-para-consumir». Chaplin mostrou-o bem em Tempos Modernos.

MJLF disse...

O tempo silencioso da escrita é bem empregue, por cá também pratico o silêncio da pintura e da música.
saúde