Segunda-feira, 28 de Março de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: ÍNDIA

Mais ainda que os poemas, o que me encanta em Rabindranath Tagore é o perfil. O tsunami capilar, a barba farta, os olhos postos no infinito sob um nariz que aponta para a Terra tudo o que o resto aponta para o Céu. Julgar-me-ão ensandecido, fútil, por pensar que no alto pescoço de Tagore reside o tronco da sua poesia. Mas é precisamente o que penso, e não me envergonho de o dizer. Há entre alguns escritores e a sua escrita uma perfeita identificação anatómica. O mesmo sucede com Walt Whitman. Lê-se o que escreveram e facilmente encaixamos nos textos a imagem que guardamos dos homens. Tagore nasceu em Calcutá, no ano de 1861. Era o que hoje se poderia dizer um menino de boas famílias. A mãe morreu-lhe aos 17 anos, em plena juventude. Tagore beneficiou de uma mentalidade familiar pragmática. Procurando combinar a tradição hindu com a cultura ocidental, começou a escrever poemas muito novo, fazendo-os publicar no jornal da família. Estudou Direito em Londres, mas deu-se ao luxo de abandonar os estudos porque não apreciava o clima londrino. Em 1883 casou-se com Mrinalini Devi Raichaudhuri, de quem teve dois rapazes e três raparigas. A primeira de muitas tragédias familiares, se descontarmos a morte prematura da mãe, dá-se quando a cunhada se suicida. Vai viver para a zona do Bangladesh onde se ocupa a recolher lendas e contos do folclore local. Escreve muito, contos e poemas, numa linguagem comum que granjeia rapidamente a admiração dos seus pares. Em 1902, um ano após a inauguração da Escola Santiniketan, perde a mulher. Rani, uma das suas filhas, morre no ano seguinte. Logo de seguida perde o seu principal assistente na Escola Santiniketan, o pai (em 1905) e Samindra, o filho mais novo (em 1907). São anos dolorosos do ponto de vista familiar que em nada beneficiam com a agitação política então vivida na Índia. Seguem-se novas visitas à Inglaterra e à América, a edição inglesa de Gitanjali (com introdução de William Butler Yeats), elogios de Ezra Pound, o Prémio Nobel da Literatura em 1913. Dois anos após a consagração mundial, dá-se o encontro com Gandhi. Rabindranath Tagore transforma-se no rosto da cultura indiana no estrangeiro, proferindo conferências no Japão, nos EUA, lendo poemas no Congresso Nacional Indiano, recebendo várias condecorações. Em 1918 perde a filha mais velha. Divergências relativas ao curso que a política indiana tomava levam-no a afastar-se do meio, viaja frequentemente pelo mundo inteiro propondo uma poética união entre os mundos Ocidental e Oriental. Cada vez mais afastado da política, dedica-se à pintura. Em 1932 nova tragédia familiar, a perda do seu único neto. Nesse mesmo ano Gandhi faz greve de fome na prisão em Poona, interropendo-a mais tarde com Tagore junto à sua cama. Rabindranath Tagore morreu em Calcutá no ano de 1941, nove anos antes da Índia ser declarada República:

JULGAMENTO

Não julgues…
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco…
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.


Se houver uma melodia no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho…
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.
Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.

Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
E enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminhas.


Rabindranath Tagore, in Poesia, trad. José Agostinho Baptista, Junho de 2004, pp. 204-205.

2 comentários:

carol disse...

Belo texto, o seu. E belo poema, naturalmente.
Obrigada.

hmbf disse...

Vamos ao Canadá?