
Por detrás dos Naked City está o músico que me provou a situação mais desconfortável que alguma vez senti num concerto. Foi há uns anos valentes, num concerto a solo, salvo erro no São Luís. John Zorn mal tinha começado a tocar. Uma senhora sentada a meu lado agarrou-se ao meu braço e pediu-me que a levasse até à saída. Era invisual. A música de Zorn provoca este tipo de efeitos, é imprevisível e não busca nenhum tipo de adesão que passe pela aceitação acessível do que estamos a ouvir. Com os Naked City nunca foi diferente. Formados no termo da década de 1980, reuniam um leque de músicos com créditos firmados em áreas musicais tão diversas como o
free jazz ou o
rock de índole experimental. Em
Absinthe (1993) todas as composições levam a assinatura de John Zorn. Juntam-se a ele Bill Frisell, Wayne Horvitz, Fred Frith e o baterista Joey Baron, acompanhante de Dave Douglas e parte integrante dos Masada. Sucede que esta constelação nunca teve por objectivo brilhar sem concessões. A música que produzem é soturna, irritante, inacessível, à base de zunidos que nos levam a crer ser possível andarem insectos dentro dos nossos nervos. Aqui e acolá a irritação pára, ouve-se água, mas logo as (a)tonalidades nos enviam para zonas insuportavelmente húmidas, bolorentas. É como se apanhássemos uma bebedeira de absinto e começássemos a alucinar, perdidos em labirintos oníricos situados algures num inconsciente onde vamos recolher os sons mais estranhos e deformados dos nossos pesadelos. Quem já apanhou uma bebedeira de absinto sabe como é, e sabe também que: apanhada uma bebedeira de absinto, jamais se poderá voltar a apanhar uma bebedeira de absinto. Há um tema dedicado a Olivier Messiaen. Um outro chama-se
Fleurs du Mal, e há ainda um outro que resume tudo:
La Feé Verte. Podem escutá-lo
aqui, tem trovoadas e chuva.
3 comentários:
Só os conheci mais tarde e foi com o primeiro álbum (http://www.allmusic.com/album/r150723), que é absolutamente potente.
Quanto à bebedeira de absinto, confirmo todas as palavras: é só uma vez.
Nunca havia me ocorrido ser possível a sensação, andarem insectos dentro dos nossos nervos. E olha que já senti coisas desagradáveis.
Mas o mais desagradável talvez seja mesmo saber que a sensação dos insetos vem do mundo, do que essa música evoca/traz do mundo, a música está lá, esteticamente ela é o que é (sei que dizer isso é uma tremenda bobagem, mas não me ocorre outro jeito de expressá-lo), uma criança talvez não sentisse mais que um leve desconforto.
Divago, certamente, mas é que insetos são detestáveis.
MCS, o Zorn é que tem fibra.
Mariana, a palavra desconforto é muito confortável. :-)
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