quinta-feira, 7 de abril de 2011

AS TOUPEIRAS

Há um conto de Charles Dickens que fala de um Anão com uma grande mona. Entre outras curiosidades, o Anão fora ensinado a escrever por um «jovem sem braços que ganhava a vida com os dedos dos pés». Dickens denota alguma compaixão pelo Anão: «Ele tinha o que eu considero uma boa mente, uma mente poética»… e tocava realejo, mas alimentava um certo ressentimento contra o Público. Isto é fácil de explicar se pensarmos num Anão que toca realejo: «O que mais o aborrecia no que dizia respeito à sua ocupação era que esta o conservava fora da Sociedade». Ora, o Anão queria sentir-se dentro da Sociedade. Mas uma das características do Público é, precisamente, desviar o olhar do que lhe está a ser mostrado. O escritor inglês dá um bom exemplo: «junte-os para qualquer propósito particular à face da Terra e mande entrar duas pessoas atrasadas e veja se a companhia inteira não fica de longe mais interessada em dar uma particular atenção a esses dois em vez de a si». A tradução é sofrível, o resto da história não me interessa, mas sugiro que nos atenhamos à figura do Anão que quer entrar para a Sociedade e não consegue porque o Público não deixa. O Público é uma massa indeterminável, distrai-se com facilidade perante os acidentes, embora seja permeável a certas técnicas de adestramento. No caótico mundo editorial português há muitos anões, são escritores legitimamente ambiciosos, indivíduos cheios de pretensões que passam a vida a tocar realejo, bem ou mal, com a esperança de que um dia algum Público lhes prestará atenção. Sucede que o Público só presta verdadeira atenção aos acidentes, os quais tanto podem ser interpretados como modas extemporâneas ou meras tendências de gosto determinadas por supostos acasos de uma putativa sorte. Perante os acidentes, o Público diminui a velocidade, fica para olhar e, se tiver máquina fotográfica à mão, regista o acidente para depois mostrar aos amigos. Os anões guardam ressentimentos contra o Público que os afasta da Sociedade onde pretendem entrar, mal percebendo que a Sociedade, em termos gerais, e como se afirma no conto supracitado, é toda ela anões. Entre os anões, há um certo tipo deles que se comporta como as toupeiras (pobres seres que não merecem a desconsideração). As toupeiras vivem enterradas em tocas que são os seus próprios preconceitos, defendem-se escondendo o rosto, largando aqui e acolá o putrefacto odor do seu hálito. Intriguistas por natureza, falam pela calada o que jamais diriam à luz do dia. Porquê? Porque são anões a tocar realejo, querem entrar para a Sociedade e, por isso, evitam comprometer-se perante o que julgam ser potencial Público. Tenho algumas toupeiras na minha vida. Umas resolveram dar a cara, mostrar a deformação do rosto, insinuando juízos tão absurdos que deixaram de ser toupeiras para passarem a ser apenas e tão-somente ratos de esgoto. Evito-os como posso, sendo que por vezes lá me vejo obrigado a cruzar-me com um ou outro. Aqueles que se mantêm anónimos anónimos se manterão. Anões tão anões que chegam a parecer rastejantes. Se agora interrompo a indiferença que geralmente lhes dedico não é para os sacar à superfície, é só com o intuito de os transformar em pretexto para um sublinhado muito mais nobre. Quem tenha, como eu tenho, uma relação diária com os livros, as editoras e essa massa a que chamaremos Público, começa, com o tempo, a relativizar muitíssimas coisas. Uma delas é a marca dos livros. À excepção de meia dúzia de marcas, onde os critérios editoriais são de uma exigência praticamente incólume, o que vamos verificando é que a distracção do Público obriga a que a descoberta dos anões tocadores de realejo vá sendo feita segundo uma certa lógica que não exclui a mediocridade. Desta forma, ou se arranja um anão best-seller como forma de sustento ou não há música para ninguém. A confusão fica instalada, entre o trigo medra o joio, muita parra, pouca uva, palha para burros às toneladas, entre o lixo uma flor floresce e resgata um pouco de beleza. Há sempre um ou outro anão que não compreende isto, pondo-se, então, no lugar das toupeiras a mandar vir com o sol. Para mim, será sempre um orgulho imenso ter sido editado pela Ovni, pela Canto Escuro, pela Deriva, projectos editoriais resistentes, felizmente utópicos, com vontade de fazerem algo que os outros não fazem. Por isso paga-se um preço. Pela parte que me toca, pago-o com muito gosto. Mais importante que ser vendido à razão de sabonetes, há sempre o gozo de ir provocando a enjoada e recorrente manifestação das toupeiras. Ao alto, um sem título de Jean-Michel Basquiat, anão que também queria entrar para a sociedade. Vejam bem onde foi parar.

5 comentários:

maria disse...

pois...permite-me uma metáfora (reflectindo sobre o que escreveste)qualquer de nós sentiria o ridículo de ter medo que lhe pisassem a sombra. Mas pode acontecer ter-se medo da própria sombra. E escavamos túneis...porque aí a luz não entra.

Paixinho disse...

Nunca vi tanta palhaçada junta em tão pouco texto. Paizinho.

O Basquiat um anão-toupeira? Anão é o Paizinho, que tem uma licenciatura para nada. E vai continuar assim, um anão que tenta, O QUÊ, trabalhar faz canseira.

O Basquiat teve o dinheiro todo que lhe apeteceu, tudo o que lhe deu, e fez o que era ele. Só ele. Desapareceu comele (assim, mal escrito, turvo, desconhecido, um anti-herói). Qual público qual merda qual quÊ...

D. disse...

Às toupeiras passa-se por cima.

Anónimo disse...

parvoeira pegada. agora se percebe porque não sais de editoras de vão de escada, pá

Márcia Luz disse...

Gostei muito das metáforas e da reflexão que ela provocam. Sobretudo, gostei da expressão "ser vendido à razão de sabonetes". Belo efeito.