terça-feira, 26 de abril de 2011

COME OUT OF CHARITY, AND DANCE WITH ME IN IRELAND


São os dois últimos versos de uma canção que W. B. Yeats (Georgeville, Dublin, 13 de Junho de 1865) parafraseou num poema do livro «Words for Music, Perhaps» (1931). Convite que atravessa os anos, bastante pertinente em regime de austeridade imposta pelos algozes do FMI. Há muito que sentia o apelo da ilha, alimentado talvez pelas reconstituições cinematográficas de velhas lutas independentistas, ou pelas canções que foram ficando desde a adolescência (dos U2 aos The Chieftains, dos The Dubliners aos nortenhos Energy Orchard). Curiosamente, os The Pogues e os The Waterboys, ao contrário do que muitas vezes se julga, surgiram no Reino Unido na cabeça de um inglês (os primeiros) e de um escocês (os segundos). Mas o meu imaginário irlandês foi sendo essencialmente nutrido pelos escritores. É espantosa a quantidade de grandes escritores que aquelas terras deram ao mundo: Swift, Joyce, Beckett, Yeats, Seamus Heaney, Oscar Wilde, George Bernard Shaw... Como é que de uma pequena ilha (imaginava-a muito maior do que é na realidade, fruto de uma incorrigível incompetência para ler mapas) surdiram tantos e tão bons homens de palavras?

Portanto, a tentação de me fazer acompanhar por um pedaço de literatura autóctone foi irresistível. A escolha recaiu sobre «Gente de Dublin» (Dubliners), de James Joyce. Não é o melhor cartão-de-visita da capital da República da Irlanda. Os personagens dos contos de Joyce vivem entalados entre vidas indesejáveis, duras, violentas e uma enorme, mas oprimida, vontade de fugir, de abandonar a cidade, de procurar a felicidade noutras paragens. São gente melancólica enterrada num pântano de pouca sorte: «Não havia dúvida; quem quisesse vencer tinha de se ir embora. Em Dublin, nada se conseguia». Casas pobres, vagabundos, sujidade, imoralidade, vício, desespero, angústia, sufoco: «Dublin é uma cidade pequena, onde todos sabem o que se passa com os outros». A esperança de um futuro risonho parece naufragada nas águas turvas do rio Liffey. É provável que a actualidade não desminta o quadro pintado pelo escritor, embora a Sul e a Norte do Liffey consigamos vislumbrar inúmeros remédios para a melancolia. Há a música e a bebida, vários parques verdejantes onde a vida parece sossegar e o ar assume um alento agradável.

David, o cicerone de Dublin, levou-nos do Dublin Castle à Christ Church Cathedral, do Temple Bar (a área por excelência da boémia irlandesa) ao Trinity College, daqui ao St Stephen’s Green. Com um impagável sentido de humor, instruiu-nos nas venturas e desventuras da nação, falou dos símbolos da presença britânica e sublinhou as repetidas tentativas de assalto de que foram sendo alvo, referiu-se a vários heróis da independência e ao bluff dos ingleses, queixou-se dos horríveis edifícios que revelam a ausência de leis rigorosas ao nível do planeamento urbano, foi implacável na exaltação dos símbolos independentistas e na censura de uma hipocrisia inglesa que pretende apagar da história milhões de irlandeses sacrificados pela fome ao longo de vários séculos de colonialismo britânico. No final, tirámos uma fotografia e substituímos o tradicional «olha o passarinho» por um muito mais pertinente «fuck imf». O nacionalismo irlandês terá os seus defeitos, aqui e acolá abrirá as portas a uma xenofobia pouco saudável, mas consegue compreender-se no seu contexto histórico muito específico. Pessoalmente, em regime turístico, só me posso queixar de um excelente sentido de humor e das qualidades «de hospitalidade e de agradável disposição» que Joyce também referia.

Das caminhadas pela cidade há a destacar uma visita à St Patrick’s Cathedral, onde Swift e a sua amada Stella estão sepultados (ruidosa, desorganizada e pobre para os padrões mediterrânicos), uma passagem pelas multiculturais colecções da Biblioteca Chester Beatty (filantropo norte-americano muito querido na República da Irlanda, uma espécie de Gulbenkian), um passeio pela impressionante National Gallery (com pinturas de Brueghel, Rubens, Caravaggio, Picasso, Monet, entre muitos outros), assim como inevitáveis deambulações pelo Temple Bar, com direito a livros numa das muitas pequenas livrarias que se encontram pelo caminho, CDs a preço de saldo, vários pints de Guinness, música ao vivo, sacos abarrotados de fish and chips a exigirem desenjoo. Rumamos na direcção do Ulster, onde um casal de amigos portugueses nos aguarda com generosíssima e impecável disponibilidade na pequena cidade de Portadown. Estamos perto de Belfast, que não chegaremos a visitar, numa zona onde os bairros se dividem entre o laranja/verde dos republicanos católicos e o azul/vermelho dos protestantes fiéis à monarquia.

Em plena época pascal, com eleições à porta, ecoam nas ruas os tambores do Sinn Fein. Acompanhamos a procissão, de um bairro classificado de problemático pelos nossos anfitriões até ao cemitério onde escutaremos loas aos tombados da Irmandade Republicana Irlandesa na Revolta da Páscoa de 1916. Seamus Heaney também os lembrou no «Requiem pelos Rebeldes». O tom oscila entre a rigidez militar daqueles que ostentam as bandeiras dos seis condados da Irlanda do Norte, escoltados por uma grande bandeira da República da Irlanda, e uma certa informalidade dos jovens músicos que parecem prestar pouca atenção aos nomes dos combatentes do IRA igualmente homenageados. As barreiras interconfessionais e políticas que impõem um clima umbroso na região nada têm que ver com a «whispering grass» disseminada pela paisagem. Visitamos o Lough Neagh, um dos maiores lagos da Europa, subimos a Coleraine, Bushmills, paramos no Giant’s Causeway e acompanhamos os penedos numa descida até ao mar. Depois regressamos por Cushendall, atravessamos os Glens of Antrim, vales de um verde deslumbrante que lembra a beleza indescritível e insuperável de São Miguel.

Bandos de estorninhos percorrem o ar largando na relva as marcas de um canto aflito. Por sobre as casas, um céu pesado de nuvens cheias ameaça os ninhos. As ovelhas pastoreiam indiferentes, lenta e silenciosamente. As árvores crescem em torno das casas, não servem de sombra em dias de chuva mas estão ali como que para servirem de moradia ao olhar dos homens. Limpam-nos a alma. Sentamo-nos a ouvir a água escorrer em pequenas cascatas que se formam na floresta, abrimos ao acaso uma antologia de poesia irlandesa:

Sunset

In Loch Lene
a queen went swimming;
a redgold salmon
flowed into her
at full of evening.

John Montague


De novo em chão republicano, tempo ainda para apanhar o comboio até Bray, uma simpática cidade costeira banhada pela Baía de Killiney. É bank holiday (feriado) e os irlandeses recuperam dos excessos da noite anterior. Tomámos-lhe a pulsação, ainda que timidamente. Convém dizer que a beleza da paisagem foi ingrata para com o físico dos irlandeses. A metade feminina, a que mais me interessa, sofre de uma alvura vitoriana agravada pelo uso e abuso de várias camadas de base. O excesso de maquilhagem não disfarça a fealdade. As mais gordas parecem trambolhos tentando equilibrar-se em saltos altíssimos, mas a maioria é escanzelada e todas elas ostentam saias tão curtas como boxers de tamanho S. Não é preciso estarem bêbedas, um dom deveras propagado por aquelas bandas, para parecerem ridículas, até porque em sapatos de salto alto pelo menos dois tamanhos acima do pé extraordinário seria o contrário. Digamos que numa média de 1 para 100, lá se vislumbra uma irlandesa atraente e charmosa.


De novo inclinados para o charme das palavras, passamos pelo Merrion Square onde se encontra um memorial em honra de Oscar Wilde. Mal tratado no passado, é agora condignamente celebrado. Trata-se de um bonito memorial, perto da rua onde morava, rodeado de verde e em pose adequada. A ele roubo o epitáfio da viagem, quem sabe abrindo o apetite para uma próxima:


IMPRESSION DU VOYAGE

Era um mar de safira; o firmamento
Ardia pelo ar, opala quente;
A vela içámos; ledo ia o vento
À terra azul que jaz a oriente.
Da proa a prumo, eu num veloz relance
Vi Zante: os olivais e enseadas,
O cume de Ítaca, a neve de Lycaon,
As flores da Arcádia em monte semeadas.
O roçagar das vagas no costado,
O vergastar das velas contra a verga,
Um mar de moças rindo à nossa popa,
Só estes sons – e o Sol então, corado,
A oeste ardeu nas ondas a galope,
E eis que enfim me vejo em solo grego!

(trad. Margarida Vale de Gato)



Este post é para a Ana, para a Sara e para o Álvaro, a quem devo as fotografias e a boa companhia. É também para a Susana e para o José João, a quem estamos gratos pela impecável hospitalidade.

5 comentários:

Andressa disse...

=)

candida disse...

ai k boa viagem! e eu aqui sem ir a lado nenhum!

Sandra R. disse...

...dos livros, dos filmes e das cartas escritas, antes de eu nascer, pelo meu pai para a minha mãe(e lidas às escondidas).
"eles bebem demais" - diz o meu pai, enquanto enche mais um copo de aguardente... falta-me fazer esta viagem. adorei esta descrição.

hmbf disse...

Foi bom e acabou. Já só penso na próxima.

oxid disse...

Voltem sempre que quiserem!
Um abraço a todos!