segunda-feira, 18 de abril de 2011

FALSA BIBLIOTECA

Ao lermos um livro como Bibliotecas Cheias de Fantasmas é inevitável que pensemos na nossa própria relação com os livros. Em boa verdade, não posso dizer que tenha uma biblioteca. Tenho os livros espalhados por praticamente todas as divisões cá de casa. Neste momento escrevo deitado na cama. Do meu lado direito, na mesa-de-cabeceira, vejo uma pilha de livros. Memórias de um ex-morfinómano, American War Poetry, Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge, Romance Sujo, O Caminho dos Pisões, Uma Antologia de Poesia Chinesa, etc… Acumularam-se ali sem qualquer tipo de critério. Simplesmente aconteceu. Uns foram oferecidos, outros comprados on-line ou em livrarias ou em feiras de velharias ou em alfarrabistas. Por que comprei um livro em alemão se não consigo ler alemão? Não tenho resposta para isto. Na mesa-de-cabeceira do lado esquerdo, mais livros. Num móvel em frente, o mesmo. O hall de entrada tem uma estante com livros de arte. Ficaram ali porque também têm uma função decorativa. Mas a maior parte dos meus livros, diria mesmo 99% da falsa biblioteca, está no sótão. Quem ali entre deparar-se-á com uma espécie de caos controlado. Livros pelo chão, dentro de caixas, caixotes, nas estantes curvadas por já não suportarem o peso dos volumes arrumados em duas filas. Se pudesse arrumá-los como deve ser, seria este o critério: de um lado a poesia, noutro lado a ficção, e num outro a não-ficção (filosofia, ensaio, psicologia, sociologia, história, etc.). Os que estão arrumados nas estantes foram organizados em função da data de nascimento dos autores. Isto ajuda-me a ter uma perspectiva histórica das correntes, das gerações, etc. Dou muitos livros, mas, mesmo assim, sinto que deveria livrar-me de pelo menos 50% dos que tenho em casa. Digo isto sem qualquer vestígio de presunção. O problema não é a quantidade nem o espaço, a gente arranja sempre mais um canto para deixar um livro. O problema é não poder ter as coisas organizadas como gostaria e, pior, sentir que metade dos livros que tenho não servem para nada, são absolutamente dispensáveis e, em muitos casos, mais valia não ter cometido o erro de os adquirir. Muito foram oferecidos, certo. E a livro oferecido fica mal dizer que não. Mas às vezes apetece, seria mais honesto e evitaria futuras e desagradáveis repetições do gesto. É fácil distinguir os livros que foram lidos daqueles que estão por ler. Se tiverem sido lidos, estarão certamente anotados, sublinhados, emendados. Por vezes, servem-me de suporte para os meus próprios escritos. Noutras ocasiões, não tenho mão no ímpeto e risco folhas inteiras ou chamo nomes aos autores, aos tradutores, aos editores. Nunca me aconteceu deitar livros para o lixo. Uma amiga confessou-me, há dias, que não resistiu à tentação de queimar certo e determinado livro. Nunca cheguei sequer a ter essa tentação. Prefiro oferecê-los, mesmo que anotados. Por outro lado, detesto que me emprestem livros e evito emprestá-los. Geralmente recuso empréstimos. Não aceito livros emprestados porque sei que não os irei ler. Para os ler, teria de os sublinhar. Não sendo meus, prefiro não o fazer. Também não gosto de emprestar livros, temo vir a precisar deles quando os tiver emprestados. Isso já me aconteceu, deixando-me naquela desagradável situação do generoso picuinhas, o tipo que empresta mas fica cheio de cuidados. Depois há que distinguir entre os livros que temos em casa que foram lidos e podem ser dispensados, os que não foram lidos mas fazemos intenções de ler e os que não foram lidos nem sentimos qualquer vontade de vir a ler. Para que este trabalho seja elaborado com cuidado é preciso tempo. E a mim falta-me, essencialmente, tempo. Mais do que para ler, para poder prescindir do que não pretendo ler.

9 comentários:

Menina no Sotão disse...

Engraçado, lendo você eu lembrei que o português veio para a minha pele quando eu tinha nove anos. Entendia uma ou outra palavra apenas. Mas queria ler Cecília e entender suas fases como a lua e seus versos com cheiro de maresia. Fiz aulas em casa e apanhei das conjulgações. Ainda hoje me perco e esqueço palavras facilmente. Mas sigo lendo livros inteiros em português e quando descubro um novo autor me sinto feliz por ter comprado um livro por causa do nome da autora que lembrava minha bisa. Maria Cecília Montez´zinny, uma escrivinhadora de gavetas que nos deixou belos dizeres. Uma vida inteira anotada num diário de folhas de amarelecido trato. Eu não sabia português, mas comprei o livro e hoje ao menos entendo o idioma, mesmo apanhando de algumas palavras.
E como vc não gosto de livros emprestados e sempre os adquiro pelos trechos lidos em algum canto ou pelos títulos que saltam pra cima de mim.
bacio

RAA disse...

alguma ordem no caos:
escritório: poesia, narrativa, ensaio literário, teatro (de autores do séc. XIX aos nascidos até 1920); música; alguns usuais; alguns álbuns.
sala: história, poesia, narrativas e teatro de autores até ao séc. XVIII; música; livros de arte.
corredor: filosofia E ensaios na calha; poetas nascidos depois de 1920; alguns usuais; castriana.
cozinha: livros de cozinha...
quarto: BD
corredor (1.º andar): literatura (autores pós-1920, excepto a poesia); cinema; antropologia; cascaliana (!); história recente; vária.
cave: livros da minha infância; revistas; livros que já não cabem nos outros lados; livros de que não gostei.
(assunto para vários posts)

fallorca disse...

:)

{anita} disse...

Não sei se notas que falas da tua relação com os livros como quem tenta explicar aos amigos uma relação amorosa séria, daquelas em que já nem tudo é bom mas também não é tudo mau. Tempo e disponibilidade é sempre o que falta:)

gostei muito e vou partilhar, ok?

Maninha disse...

Quando decidir limpar, mande alguns para mim. Já sabe a morada :)

redonda disse...

Eu tenho um livro em egipcio (espero que seja assim que se escreve) e não sei ler egípcio e há dois livros que decidi perder (porque não consegui levar-me a deitá-los ao lixo ou destruí-los) - não os queria ter, mas pela mesma razão que não os queria ter, também não os queria dar (um era horrível e o outro terrivelmente triste).

Sandra R. disse...

cheguei a este post, pela "mão" da Anita que o partilhou. A minha relação com os livros e as bibliotecas nasceu da minha amizade com a Anita. Acho até que a nossa amizade nasceu assim na infância e adolescência por partilharmos este gosto comum por livros e bibliotecas... iamos à biblioteca municipal uma vez por semana e podiamos requisitar 3 livros. Depois falávamos neles: "lê este que é mesmo bom!" Tenho um enorme desapego pelos livros que leio... acho que tal e qual como pelas pessoas que amei. sublinho pouco, mas quando sublinho é de coração. e quando chega o fim, deixo-as partir. Tenho livros espalhados pela minha casa, pela dos meus pais, pelo sotão, livros meus que descubro na casa da minha irmã... dos livros que me marcaram verdadeiramente tenho apenas um comigo. Um dia emprestei-o a alguem que depois já não o podia devolver. sem querer na vida real reproduzem-se partes lidas na ficção. sem esperar o livro foi deixado num café. apanhei-o e trouxe-o para casa. acho que este livro é a minha biblioteca... os outros ficaram nas estantes só por acaso.

{anita} disse...

Sandra, que giro este encontro numa caixa de comentários alheia :D
(não aguento a curiosidade: que livro é esse?)

Sandra R. disse...

Anita! não sabia que voltarias aqui... agora já sabes qual é! :)