domingo, 8 de maio de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #15


Tenho duas colecções de jazz feitas do princípio ao fim. Foram as únicas colecções que alguma vez terminei. Julgo mesmo ter sido a única coisa na vida que fiz do princípio ao fim. Em nenhuma delas aparece Ornette Coleman, saxofonista de excepção e figura controversa num mundo onde anormal é ser-se politicamente correcto. Nascido a 19 de Março de 1930, em Fort Worth, começou a tocar sob a influência de Red Connor e do inevitável Charlie Parker. Tinha 14 anos. Mudou-se do Texas, onde nasceu, para Los Angeles no início dos anos 50. A mania de improvisar numa banda que ganhava a vida a tocar melodias convencionais levou-o ao despedimento e a tentar a sorte noutras paragens. Alternou vários empregos com o estudo da música, lendo livros sobre harmonia e cruzando-se com músicos que acabariam por ser fundamentais na sua própria afirmação musical. O mais importante de todos terá sido o baixista Don Payne. Foi em casa deste que Red Mitchell ouviu Ornette Coleman e o levou até Lester Koenig, o produtor da Contemporary que acabou por juntar o quinteto deste Something Else!!! (1958). O trompetista Don Cherry, Walter Norris (piano) e Billy Higgins (bateria) são o trio que falta. Este quinteto marca a estreia de Ornette Coleman nas gravações em nome próprio. Quem aprecie jazz facilmente encarará o som registado neste disco, mas à época esta música gerou furor e discussão. As portas para o free começam a ser abertas com solos a distanciarem-se das linhas melódicas de base e improvisações despreocupadas face à melodia. As linhas de entrosamento estão lá, embora agora o desafio seja a marcação do tom e uma espécie de deriva delineada pelas paredes do labirinto. As influências são perfeitamente perceptíveis, quer quando os riffs evocam blues, quer quando os compassos remetem para ritmos latinos, mas o mais impressionante ao longo dos nove temas é mesmo a afirmação de um compositor e da sua singularidade: «I believe music is really a free thing, and any way you can enjoy it, you should». Tudo dito.

6 comentários:

Alda Lima(Lisboa) disse...

Gosto muito dos seus textos e fui procurar a sua edição à Feira do Livro de Liboa, mas não tinham. Pode-me confirmar se está lá ou não? Obrigado.

Alda

hmbf disse...

Não posso porque não sei, mas desconfio que nenhum dos meus livros esteja à venda na feira.

Alda Lima (Lisboa) disse...

Nem o da Deriva Editora? Era esse que eu procurava na Feira, mas tentei na tenda dos Pequenos Editores e não encontrei. Desculpe incomodá-lo com isto.

Alda

hmbf disse...

Não tenho resposta para lhe dar porque não sei. É melhor perguntar ao editor.

Henrique Fialho (Caldas da Rainha)

MCS disse...

Estes primeiros discos do Ornette Coleman são fabulosos.
Agora vou armar-me em Zandinga: essas duas colecções foram a da Orbis/Fabri com capas pretas e a outra, da Blue Note, com capas azuladas? Tenho alguns da segunda.
Mas estes discos do O.Coleman...

hmbf disse...

Foram.