terça-feira, 17 de maio de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #16



Posso ser conservador e não ter cabeça para Nova Iorque, mas sei apreciar um bom vinho. O Conventual branco de 2010 cai perfeitamente com umas pernas de frango guisadas, acompanhadas de esparguete. Sobretudo se estiver bem fresco. Deixa-nos os dedos numa levitação que se torna difícil acertarmos na tecla certa enquanto escrevemos. No entanto, há sempre a possibilidade de voltarmos atrás, apagarmos, corrigirmos o erro, refazermos o texto. Uma possibilidade que a vida nem sempre permite. Escute-se com atenção None of the Above, o memorável registo de Peter Hammill, como prova da incompatibilidade que separa o homem das suas ambições. Hammill foi parte integrante dos históricos Van der Graaf Generator. Nasceu em Inglaterra no ano de 1948, cursou filosofia e artes, foi educado por jesuítas (ninguém pode gabar-se de um passado perfeito), cedo enveredou pela melhor das carreiras: a solo. O álbum de 2000 é memorável por várias razões. A primeira está directamente relacionada com as qualidades de um bom vinho, o apuro dos ingredientes, a casta onde amadureceram os componentes, a química dos elementos. 8 canções escritas nas estrias da tijoleira (não me perguntem, não sei o que pretendo afirmar com isto mas faz-me sentido). Somebody Bad Enough merecia um ensaio, é de audição obrigatória, pelo menos, 5 vezes ao dia durante 5 semanas seguidos. E estou a ser condescendente. Há nas composições deste disco um hálito que merece ser provado sem preconceitos nem qualquer tipo de predisposição. O segredo é deixarmo-nos embalar pela reverberação, pelos graves, pelos sopranos, pelos harmónicos. Cada tecla acompanha uma nota que as cordas vocais emitem já não apenas como uma pedra sobre o caminho, mas como o eco dessa pedra caindo no fundo de um abismo para onde foi atirada. O segredo, a existir, reside no reflexo, nos círculos formados na água após a queda do seixo. Há momentos que sugerem uma certa complexidade, uma estranheza. Como no tema In a Bottle, onde várias vozes se sobrepõem e desafiam a estrutura linear da maioria das canções: «Sangreal, the eau-d-vie». Essencialmente composto na base de sintetizadores, este disco é de um organicismo incomparável. Aquilo a que alguns chamam atmosfera fica reservado às palavras, aqui sintetizadas em dois versos: «life’s just got started when / you find you can’t begin again». E o resto é conversa para amantes de passerelle e novas tendências, em Nova Iorque, Paris ou no Burkina Faso.

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