segunda-feira, 30 de maio de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #17




Em 1995, um filme: Dead Man Walking, de Tim Robbins, com Susan Sarandon e Sean Penn. Revejo-o amiúde. A banda sonora juntava Nusrat Fateh Ali Khan, um dos consagrados da música de origem árabe, a Eddie Vedder, o carismático líder dos Pearl Jam, banda pedregosa com lugar de destaque nos anais do grunge, coisa que deve ter nascido para os lados de Seattle e tentava rejuvenescer a música de guitarras quando a pastilha vigorava. A voz de Nusrat Fateh Ali Khan, ali descoberta, deixou-me a modos que inebriado. Fui à procura e, mais tarde, descobri estes Rizwan-Muazzam Qawwali no catálogo impecável da Real World Records. Primeiro: Rizwan (Ali Khan) e Muazzam (Ali Khan) têm laços familiares a Nusrat Fateh, devidamente explicados em árvore cronológica reproduzida no libreto que acompanha o CD. Segundo: cantam Qawwali, um género de música sufi com raízes fortes em território paquistanês. É um género antigo, daqueles que se costuma dizer serem tradicionais, e foi amplamente difundido pelo tio Nusrat. As quatro interpretações de Sacrifice to Love, ao som de palmas, tablas e harmonium indiano, relevam o essencial desta forma de devoção: o canto, a voz, é o que mais nos aproxima do sagrado. O poeta Omar Khayyam, que aconselhava amor e ânforas de vinho, havia de apreciar esta embriaguez na garganta do destino. Se, por mais que o pretendam dissimular, tudo nos liga à cultura árabe, seja neste revelador êxtase vocal que definitivamente nos encontramos com o pó levantado pelo peso das pernas no decorrer da última caminhada. Um homem morto caminha, que o faça cantando como as miragens no deserto.

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