Há não muito tempo, veio à conversa este livro. Cada qual disse de sua justiça, não tendo o processo transitado em julgado. À minha justiça, acrescentei: sendo isto que penso, o melhor é ficar calado; se falar, vou ter chatices. Assim fiz durante algum tempo, até que ontem resolvi publicar o texto. Porquê? Este rapaz ficciona sobre o assunto, cai no ridículo da insinuação torpe e ensarilha-se em cabalas e conspirações que não lembrariam ao diabo. Portanto, o H, que sou eu, homem de bom coração, agradecido, mordido de inveja por causa de um prémio que alguém ganhou, e eu ralado, resolveu atirar-se ao agraciado com o que tinha à mão. Quem me conheça, há-de rir que nem um tonto. Quem não me conheça, ficará pelo menos a saber que tenho um bom coração. Valha-me, porém, o espanto cada vez mais raro. Não sendo ingénuo, já esperava reacções. Acabam sempre por nos cair em cima quando abrimos a boca para dizer: não gostei. Paciência, enquanto por cá andar não esperem outra coisa do meu bom coração ressabiado. Quando gosto digo que sim, quando não gosto digo que não. Manda a cultura democrática que em Portugal isto tenha qualquer coisa de excepcional, a ponto de, já hoje, me terem avisado que por este andar ainda fico sem amigos no Facebook. Restam-me as bibliotecas. O espanto vem da forma: há ali qualquer coisa de Sócrates a inclinar-se para Portas, uma coisa de quem evita a objectividade em prol da insinuação torpe, de quem não consegue ficar indiferente sem conseguir ser claro, uma escapadela ao compromisso, uma espécie de não quero chatices mas toma lá que é para aprenderes. Em suma: aquilo a que nas crianças se chama birra e nos adultos é apenas parvoeira. Uma bojarda, é o que é. Pobre de mim, tão novo e já tão esburacado. Em suma: parabéns ao Felício por ter ganho mais um prémio, algo que não sabia por, vá lá, me ser completamente indiferente. Que alguém goste da sua poesia só me deixa feliz. O mundo é vário, filhos. E por mim é essa a sua beleza.
P.S.: e já agora, por antecipação, querem apostar que a toupeira vai aparecer? Aposto uma grade de minis.
4 comentários:
é como te disse pá! qualquer dia só as bibliotecas! e já vais com sorte!!
isto da crítica ou do parecer ou da opinião é muito bonita, sim senhor. mas quando nos entram pelo quintal e tal e não é bem aquilo que queremos ouvir e ler e tal.
o bonito disto, sabes o que é, pá? é que te deste ao trabalhor de ler um livro. e logo de poesia! essa nobre arte que encerra as mais variadas e complexas leituras! e depois, sacrilégio!, ainda escreveste sobre ele!! olha que ganda porra!!
o que te vale, como dizes, é o bom coração.
abraço
No Brasil também é assim: a crítica, quando divergente, costuma despertar acusações infames e brigas sem fim. Há panelinhas e paróquias: grupos divergentes se detestam.
Sérgio Buarque, o crítico que estudei na tese, falava disso com frequência, a crítica que vira sinônimo de inimizade. A crítica moderna, conforme coloca Koselleck em "Crítica e crise", surge em decorrência da consolidação da esfera pública. Aqui tateio minha leitura de Koselleck, conforme pude fazê-la uma tanto às pressas. Precisaria reler o livro:
http://thmari.blogspot.com/2010/10/o-surgimento-da-critica-moderna-segundo.html
Ah, sim, ia me esquecendo: há uma cena em "Diários de Motocicleta" em que o então jovem Che Guevara, hospedado com seu amigo na casa de um escritor, admite francamente que não gostou do livro, enquanto o amigo se derrete em elogios. É uma postura que exige coragem.
Abraço.
Não vás ao «cardiologista», pá!
As toupeiras assustam-se muito facilmente, apesar de quase cegas. Depois vão assim ao deus dará,caminhando sem direcção, vindo apenas à superfície para fazer disparates. Às vezes há quem lhes publique os livros. Só para não chatearem mais. E depois desaparecem. Senão, aqui ficam algumas dicas para controlá-las: http://www.simplepestcontrol.com/mole-control.htm. P.S.: Começa a abrir a grade, pois deve(m) estar a aparecer não tarda.
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