sábado, 11 de junho de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #19



Só de o pensar sinto um arrepio na espinha capaz de me provocar uma hérnia discal com graves consequências degenerativas. Por isso, evito pensá-lo. Mas a verdade é que passaram 15 anos sobre Dynamite, o mais assustador dos álbuns da sueca Kristina Marianne Nordenstam (aka Stina Nordenstam). Os jovens que tenham hoje a idade deste memorável conjunto de canções podem averiguar a excitação provocada pelo final do século XX. À época, já se falava de crise de valores, de choque civilizacional, de futuro pós-humano. As torres gémeas mantinham-se de pé, mas a ovelha Dolly acabara de nascer e os raelianos preparavam-se para lançar a empresa Clonaid. Em suma, o mesmo absurdo essencial, a mesma melancolia existencial, homens diferentes dentro das mesmíssimas estruturas de raciocínio. O caos, o colapso, o apocalipse é uma evidência prolongada no leito do tempo, a linguagem apenas se limita a introduzir novos termos numa mesma retórica. Dynamite reflectia/reflecte tudo isso, com a sua sonoridade sombria, amadurecida, sincrética. Dos primeiros álbuns, Stina manteve apenas a doçura da voz. Entregou-a, porém, a arranjos apoplécticos a milhas da ingenuidade e transparência dos álbuns Memories of a Color e And She Closed Her Eyes. Uma distorção abafada à altura dos tempos, assumindo para si os traumas do mundo e muito mais honesta na exposição das dores e dos tormentos pessoais. António Pires, no Blitz, entusiasmava-se e chamava-lhe «assustador e belo». «É um álbum que fica para o futuro». Aqui estamos nós, no futuro, a confirmá-lo.

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