terça-feira, 14 de junho de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #20



Respigando o nome numa oração judaica, Richard Wolfson e Andy Saunders, a dupla por detrás dos Towering Inferno, conceberam Kaddish (1993) como uma peça em quatro actos. O tom espiritual do primeiro tema pode induzir em erro. Endre Szkárosi lê alguns salmos, a húngara Marta Sebestyén, provavelmente o nome mais familiar deste projecto, recita um poema e empresta a excelência da sua voz ao canto de alguns versos, sob os quais se ouve uma voz masculina afirmando pogrom e, por fim, cantando parte de uma oração funerária húngara. Ao segundo tema, a distorção das guitarras eléctricas desfazem a toada mística, ainda que lúgubre, do intróito. Afinal as orações são ecos de uma indústria de morte perpetuada no tempo, com índices elevados de estupefacção durante a Segunda Guerra Mundial. Mais que uma homenagem ao sofrimento e à resistência, ou uma reafirmação da memória contra o esquecimento, este disco é uma reverberação de fantasmas no corpo dos viventes. Os arranjos de cordas e as violentas composições para piano que vão introduzindo elementos próximos do rock industrial reproduzem um ambiente dramático sem paralelo, que eu conheça, na música dita popular. O ecletismo final é uma virtude inquestionável. Os momentos de acalmia, mais ou menos sinistros, que alternam com a pura alienação da generalidade das composições, conferem ao todo um dramatismo deveras revelador. Num só tema, a voz de Hitler pode aparecer “sampleada” ao lado da voz de um rabino. Estranha vizinhança para uma tão realista verdade.

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