Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: CHINA

Pegar numa obra como Uma Antologia de Poesia Chinesa (Assírio & Alvim, 2ª edição, Setembro de 2010) obriga a uma de duas opções: ou procuramos no poema única e tão-somente aquele fogacho de beleza que a palavra logra resgatar, ou disponibilizamo-nos para ir mais além, tentando perceber um pouco mais da cultura onde esse poema foi engendrado − porque há na palavra escrita uma relação inexorável com a cultura, mesmo quando a palavra arrisca o terrorismo poético da contracultura. Entrar na “poesia chinesa” pela mão de Gil de Carvalho é travar conhecimento com um território vastíssimo e impermeável a leituras estereotipadas. Muitas vezes ouvimos falar de poesia oriental como se toda ela fosse uma e a mesma coisa. Esta antologia prova o contrário. Há uma diversidade nas formas, nos temas, nas tonalidades, que nega qualquer tipo de generalização. Ainda que possamos detectar características comuns nos diferentes períodos contemplados desta parte da história chinesa, porventura transversais a toda a poesia, venha ela de onde vier, a verdade é que nenhuma dessas características comuns permite delimitar as fronteiras de uma suposta “poesia chinesa”. Depois há um outro problema. A poesia que nos chega da China tem uma componente visual que a tradução atraiçoa. Neste campo, estamos sós. Resta-nos confiar na capacidade do tradutor para transformar em palavras que nos sejam familiares a musicalidade de uma “caligrafia” intraduzível, mesmo quando as versões portuguesas assumem uma sintaxe quase tão indecifrável quanto os caracteres chineses. Ficamo-nos, portanto, por meras aproximações/versões. E já não é mau. Muitas curiosidades podiam ser apontadas entre este extenso panorama de poetas. Citaremos três considerados maiores entre os demais. Wang Wei (701-761), poeta e pintor da dinastia Tang, nasceu no seio de uma família aristocrática. Budista militante, ocupou altos cargos. Durante uma rebelião de opositores à dinastia Tang, ter-se-á fingido surdo pra não ter que servir os rebeldes. Perdeu a mulher no ano de 730, dedicando-se posteriormente à vida monasterial. Os seus poemas, como a maioria dos poemas chineses, são breves e contemplativos. Denotam uma forte relação com a natureza:

O PARQUE DOS VEADOS

Solitários vazios montes, ninguém à vista
Ecos somente de vozes humanas.
Um sol tardio entra no bosque fundo
Brilha de novo o musgo verde.

De Li Bai (701-762), que viveu no mesmo período de Wang Wei, a chamada era de ouro da poesia chinesa, se diz ter sido «vagabundo, boémio, poeta de inspiração súbita, do fluir universal, possuidor do «divino dom». Segundo a lenda, embriagado, teria morrido afogado no Rio Azul ao tentar agarrar a imagem da lua aí reflectida». As histórias que a sua vida inspirou são proporcionais à sua grandiosidade enquanto poeta. Apesar de Taoista, a sua vida parece-se à de um maldito ao estilo ocidental. Viandante entre a civilização, subiu às montanhas para daí dialogar melhor com a humanidade:

DIÁLOGO NA MONTANHA

Perguntas-me: porque habito a verde montanha?
Rio-me. E nem respondo. Quieto, coração.
Correntes águas, floração, vão para esse escuro
E outro mundo há que dado não é a Mortais.

Por fim, Tu Fu (712-770). Ou Du Fu. Considerado por muitos o maior dos poetas chineses, perdeu a mãe quando ainda era criança. Foi criado por uma tia que o instruiu segundo as regras clássicas do confucionismo. A amizade com Li Bai deverá ter influenciado a sua opção por uma vida de poeta após haver fracassado nas suas ambições por um cargo público. Passou sempre por grandes dificuldades, quer por culpa de algumas debilidades físicas, quer pela época conturbada em que viveu. A sua poesia reflecte essas conturbações, chegando, por vezes, a adquirir a forma de poema de guerra. Seja como for, é talvez o poeta dos três aqui citados que mais facilmente poderá ser entendido pelo leitor habituado apenas à poesia do Ocidente:

PENSAMENTOS NOCTURNOS

Ervas rasteiras,
Brisa suave
Sozinho na noite
Sob o mastro ao alto.

As estrelas suspensas
Sob a vasta planície
A lua ondula
Corre o grande rio.

Vem das obras, a fama?
O letrado retira-se velho
E doente – sempre errante
Que sou eu senão uma
Gaivota entre céu e terra?

2 comentários:

Rui Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rui Almeida disse...

Só por curiosidade, deixo-te aqui a tradução de António Graça de Abreu do poema de Li Bai, juntamente com o respectivo comentário q me parece interessante:

«Na montanha, pergunta e resposta

Perguntas-me:
"Porque vives na montanha azul?"
Meu coração sereno sorri e não responde.
Sobre as águas flui o brilho delicado
das flores de pessegueiro.
É esta outra terra, outro céu,
diferente do mundo dos homens,
lá em baixo.

_______

Alguns comentadores chineses consideram que Li Bai foi buscar a inspiração para este poema a um texto em prosa de Tao Yuanming (365-427) intitulado "A Nascente das Flores do Pessegueiro". Eis a história.
Um pescador subia um rio e encontrou-se, de súbito, rodeado de pessegueiros em flor. Continuou a viagem até à nascente do rio. Abandonou o barco, subiu a um monte e descobriu uma gruta. Entrou nela e, à saída, do outro lado do monte encontrou uma pequena comunidade parada no tempo cujos habitantes ignoravam tudo sobre o mundo exterior, acreditando viver ainda sob a dinastia Qin, derrubada há seis séculos.
A comunidade, à boa maneira taoísta, vivia a felicidade do contacto pleno com a Natureza, longe das lutas pelo poder e das intrigas, trabalhando a terra, cultivando a paz.
Alguns dias mais tarde, o pescador pediu para regressar a casa, mas os membros da comunidade só autorizaram quando ele prometeu jamais falar, a quem quer que fosse, sobre a existência deste lugar.
De volta a casa, o pescador faltou ao prometido, e regressou com um numeroso grupo de pessoas em busca da comunidade perdida. Nem ele, nem ninguém foi mais capaz de reencontrar o caminho que conduzia ao mundo da utopia.»

(in Poemas de Li Bai, tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, Instituto Cultural de Macau, 1990)