terça-feira, 30 de agosto de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #25



Às portas do século XXI, Scott Walker, com as pupilas feridas de luz, cantava: Do I hear 21, 21, 21… O tom estava dado. Farmer in the City, tema de abertura deste Tilt, lembrava um dos maiores poetas do século passado: Pasolini. Tudo perfeito, os arranjos de cordas da Sinfonia of London, os sintetizadores de Brian Gascoigne, as percussões de Ian Thomas, a voz cavernosa do intérprete, uma melancolia arrebatadora debaixo de um título certeiro. Com uma carreira encetada ainda na década de 1960, Scott Walker havia sido ofuscado por problemas psiquiátricos graves. 1995 marcou o regresso. É um disco doloroso, difícil, negro. Entre o canto lírico e o rock industrial, o drama encenado em Tilt percorre as vielas devolutas de uma Tempo em ruínas. As palavras limitam-se a sugerir imagens, situações grotescas, relações sadomasoquistas com a decadência do mundo. Óptimo velório do século XX, funesta premonição dos tempos vindouros. Curiosamente, em todos os temas há momentos penetrados por uma estranha luz. Imagine-se um quarto escuro súbita e momentaneamente trespassado por finíssimos raios solares, novamente ocultados por nuvens densíssimas em trânsito intermitente. É esse o ambiente que se experiencia no trabalho de Scott Walker.

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