sexta-feira, 26 de agosto de 2011

EIS A RELVA

Henry David Thoreau falava de uma tal de Society for the Diffusion of Useful Knowledge. Não nos é difícil imaginar a palidez dos membros de uma sociedade com tal designação. Nada distingue mais o homem dos outros animais do que esta pretensão do conhecimento, uma pretensão a partir da qual soube o bicho-homem edificar obras magníficas e sobre a qual conseguiu também arruinar grande parte do que edificou e outra grande parte do que para ele fora edificado. É isto o bicho-homem: um animal ingrato, constrói para destruir e, não satisfeito, encarrega-se igualmente de destruir o que não construiu − os vales, as falésias, os fiordes, as serras, as montanhas, os oceanos, a floresta, toda a criação que fala por si mesma e não cabe nas enciclopédias humanas. O conhecimento, para Thoreau, não estava no domínio sobre a natureza, mas residia ele mesmo nessa fonte de todas as coisas. Os índios com quem Thoreau travou conhecimento pensavam da mesma forma, isso mesmo lhe terão dito. O mal está em pensarmo-nos escravos de quem nos cria e quem nos oferece tudo o que é essencial para que possamos viver a vida que nos cabe, a Natureza. Mas viver a vida que nos cabe não é digno para um gene egoísta em desenvolvimento. O gene egoísta pretende o controlo das forças vitais, distancia-se da vida, arrasta-se num sofrimento atroz na direcção da sobrevivência solitária e mendicante, escravo das suas próprias ambições como uma larva em busca de conforto. A Society for the Diffusion of Useful Ignorance proposta por Thoreau parece-nos muito mais aceitável. A um Useful Knowledge preferimos uma Useful Ignorance. Esta ignorância útil traz implícito um sentido mais nobre e mais elevado, o sentido da vida. Quem tem a Terra não precisa de outro sentido, quem insiste em desmenti-la busca no Céu a resposta para as suas angústias. Um ateísmo esclarecido pressupõe a utilidade da ignorância. Não nos interessa conhecer Deus quando temos a Natureza à mão, não nos interessa o Céu quando podemos caminhar sobre a relva. As coisas divinas materializam-se nos demónios bíblicos: nas pragas, nas pestes, nas temíveis tempestades, nos dilúvios, nos furacões, nos tornados, nos tsunamis, nos terramotos… Basta-nos essa força. É nela que encontramos inspiração para a vida, o deslumbramento dos néscios, dos selvagens, dos ignorantes. Ignorar é saber dispensar a utilidade de um conhecimento gerador de medos e angústias. Só sei que nada sei, dizia o putativo pai de uma lógica de pensamento ruinosa. Nem sei se sei alguma coisa, deveria antes ter dito. E sobre tal premissa toda uma nova cultura poderia ter sido erguida, uma cultura simplificada numa espécie de não sei nem me interessa, conquanto me seja dada a possibilidade de viver como bem entendo, em paz comigo e com os outros, daquilo que a terra me dá e rouba. Mas o homem quer mais, o homem ambiciona mais do que aquilo que a terra lhe dá, convence-se de que há algo mais para lá daquilo que a terra lhe dá, escava, voa, busca, procura, investiga sem se dar conta que na azáfama do seu labor está inscrita uma única verdade: a voragem do tempo sobre as células, o fim, a morte. Enquanto escava, morre; enquanto voa, morre; enquanto investiga, morre; enquanto vive, morre. Que benefícios trouxeram ao mundo séculos e mais séculos desta cultura do conhecimento? Que utilidade real tem este chamado saber? Que sabedoria há num saber destes? Podemos hoje interrogar-nos sobre quantas pessoas sobreviveriam nas sociedades ditas avançadas, evoluídas, desenvolvidas se uma qualquer catástrofe ambiental, social, política, económica as obrigasse a regressar à Terra? Quantas saberiam plantar, colher, pescar, caçar? Quantas pessoas estariam aptas a sobreviver num mundo que lhes retirasse a companhia de gás, os hipermercados, a água canalizada, o forno eléctrico? É a esta dependência que chamam conhecimento útil, é a esta pálida inabilidade que chamam conhecimento útil. Paradoxo dos paradoxos, nenhum conhecimento útil fez de nós seres mais inúteis do que um conhecimento assim.

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