Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

WASSILLY

As personagens de Break It Down (Lydia Davis) são geralmente paranóicas, sofrem de uma disfuncionalidade doméstica que as impele para um labirinto de reflexões inconsequentes. Ou ocupam lugares instáveis em famílias à beira do abismo, ou estão perdidas no deserto do ensimesmamento. Separações, divórcios, sonhos adiados por desilusões devastadoras são os argumentos que dão forma a existências cujas vidas parecem justificar-se apenas pela procura de momentos pacificadores. De todos, o conto que mais me cativou foi Esboços para uma Vida de Wassilly. Wassilly (was silly?), sendo a mais ficcional das personagens, é igualmente a mais realista. Tem qualquer coisa de sartriano, embora a náusea ainda não o tenha derrotado definitivamente. A sua batalha é íntima, não está em conflito com o mundo nem com os outros. Apenas consigo próprio, com o desânimo que o tomou, com a desilusão que o assaltou. Lydia Davis é genial na objectividade que coloca na caracterização do seu personagem: «ele era apenas um intelectual gordo», «uma pessoa agradável mas ineficaz». E ainda que a ideia que construiu de si próprio esteja desfasada da realidade, Wassilly não tem solução senão viver o resto dos seus dias na companhia de um cão. No mundo real, só falta o cão aos wassillyanos.

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