quinta-feira, 8 de setembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES # 26





Perdi alguns minutos a tentar averiguar quando vi Bill Callahan, o indivíduo por detrás do Smog, em Leiria. A tarefa não me mereceu mais do que alguns breves minutos. Ingratos minutos. Foi há tanto tão pouco . Lembro-me que à época fiquei impressionado com o jogo de cintura (em sentido literal) do singer/songwriter norte-americano. Wild Love (1995) é um dos mais desequilibrados dos seus álbuns. Mas é igualmente um dos melhores, porque nesse desequilíbrio reflecte a volatilidade dos humores. Muitos temas não chegam sequer a cumprir dois minutos. No entanto, são de uma intensidade lírica e de uma ousadia conceptual dificilmente equiparáveis. O registo é geralmente melancólico, mesmo quando somos empurrados para um carrossel que rodopia debaixo de uma chuva de fogo de artifício miudinho. Os acordes distorcidos dão consistência a letras sobre sonhos esvaecidos e esperanças desfeitas, embora o porém que se intromete nos silêncios coloque esta música a milhas do monocromatismo da maioria dos projectos congéneres. Lá para o fim há, inclusive, um épico rompendo das entranhas da solidão. Já se adivinhava, sobretudo por culpa de umas cordas emprestadas por Jim O’Rourke que vão aparecendo amiudadamente. Wild Love é um disco setembrino, tem a cor das folhas em queda e o cheiro das queimadas que antecipam Outubro, um sol sombreado por nuvens ameaçadoras, a depressão das alergias. Das alegrias. Interrompe-nos as ilusões sem nos desiludir, diz-nos que aos sonhos são preferíveis as acções possíveis, mesmo quando na clausura das suas ínfimas possibilidades se encerra a efemeridade das estações.

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