segunda-feira, 12 de setembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #27



Não aprecio antologias. Vocês conseguem imaginar um DVD com excertos dos filmes do vosso realizador preferido? Eu não. É por essa razão que não gosto de antologias, nem das “poéticas” nem das “musicais”. Há num livro ou num disco uma integridade que a antologia desrespeita. Fragmentar a obra significa quebrar o corpo, perde-se solidez. Em muitos casos esse trabalho de recolha chega a ser criminoso. Mas há também aqueles casos em que a recolha resulta, quer pelo excesso de obra, quer pela coerência criativa mantida ao longo dos anos. Esta antologia comemorativa dos 25 anos dos Can é um exemplo paradigmático do que não deve ser feito, mais ainda tratando-se de uma banda tipicamente conceptual, mas que, ao ser feito, funciona. Até porque aos Can reconhecemos apenas 1 “êxito” comercial. Coisa rara em best-offs. Os Can surgiram na Alemanha quando a década de 1960 queimava os últimos cartuchos. Autores de uma música multifacetada, souberam sempre fugir a rótulos e catalogações. Há quem lhe chame rock vanguardista ou experimental, mas nenhum desses chavões é correcto quando nos referimos ao ecletismo desta música. Outside My Door − do álbum Monster Movie (1969) − antecipa o punk, She Brings The Rain − de Soundtracks (1970) − é jazzy quanto baste, já Mushroom − do imprescindível Tago Mago (1971) − transporta a banda para o universo que a imortalizou, com uma secção ritmíca inspiradora de metade das bandas de post-rock vindas a lume vinte anos depois. Não é simples fazer boa música do ruído, metendo constantemente o pé em pântanos inexplorados. O espírito de aventura alicerça a digressão. Uma atitude rara, sobretudo quando aos estilhaços a maioria dos projectos musicais da actualidade vai preferindo uma integração e aceitabilidade consentâneas com a mais entediante das banalidades.

Sem comentários: