terça-feira, 20 de setembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #28





Julian Cope foi durante vários anos o irrequieto líder dos The Teardrop Explodes, uma banda da qual não guardo nem boas nem más recordações. Em 1984 encetou uma carreira a solo cujo pico de popularidade ocorreu três anos depois, com o álbum Saint Julian e o êxito World Shut Your Mouth. Jehovahkill foi publicado em 1992, remetendo para um canto o imediatismo pop do passado. Ainda que tenha havido sempre nas composições de Cope um gosto assumido pela excentricidade, Jehovahkill sublinha-o com 16 temas divididos em três conjuntos de irrepreensível solidez. É aquilo que à época se chamava de álbum conceptual, atravessado por uma inclinação pagã com preocupações ecológicas implícitas. Violas acústicas, temas calmos, por vezes épicos, ou até o instrumentalismo psicadélico de Necropolis, com ritmos saídos de uma ancestralidade evocativa de batalhas divinas, arranjos e acompanhamentos tribais, criam um ambiente ritualista irresistível. Poet is Priest…, por exemplo, envia-nos na sua deriva electrónica para as experiências alucinatórias de uns Primal Scream. A paleta é variada. Alguns rasgos explosivos, como no excelente Up-Wards at 45’, são especialmente reveladores: Loving is the face of Jesus / Smiling is the Mona Lisa / To penetrate the diamond / the pituatary gland gets torn off its access and frees / Earth is a cannon of love, shame beyond Socrates / Who's to blame but the man like any man? / Who's to blame but the man who leads? Este disco inscreve-se numa trilogia de registos elaborados sobre um suposto colapso das religiões universais, celebrando-o e desbravando caminho para um reencontro com as forças da natureza. No interior, poemas místicos na linha de Blake fazem-se acompanhar por imagens de templos megalíticos. Deserto, vulcões, oceanos, tempestades, sismos, sol, lua… os quatro elementos em constante agitação, e no interior do estômago buliçoso da terra um vírus chamado homem. Este universo é a raiz a partir da qual as canções de Jehovahkill florescem, formando uma paisagem enigmática mas atraente. Pertinente.

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