sexta-feira, 30 de setembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES # 29





Tenho para mim que o inglês Robert Wyatt é um génio. Baterista dos Soft Machine, emigrou do rock psicadélico para a escrita de canções em nome individual ainda na década de 1970. Marcado inicialmente por um timbre de voz sui generis, tão sofrido quão persuasor, viu-se numa cadeira de rodas, paralisado da cintura para baixo, após uma queda. Shleep (1997) é um dos seus melhores álbuns. O minimalismo electrónico de Brian Eno nota-se no tema inicial, resvalando, ao segundo tema, para um ambiente jazzy, em regime free, que marcará a alternância de discursos neste álbum até ao fim. De resto, se há coisa que caracteriza as canções de Wyatt é uma inexcedível capacidade para experimentar novas texturas. Maryan, com o seu violino quase tradicionalista, a lembrar alguns dos melhores momentos da Penguin Cafe Orchestra, é das canções mais vanguardistas vindas a lume na última década do século passado. Há nesta canção uma envolvência entre o ritmo introduzido pelas palavras do poema e a melodia que a torna rara. Em Portugal só conheço um caso onde tal sucede, numa canção de José Afonso chamada Era um redondo vocábulo. Não coloco a fasquia tão alto por acaso. Reparem, a título de exemplo, na primeira quadra de Free Will and Testament:

Given free will but within certain limitations,
I cannot will myself to limitless mutations,
I cannot know what I would be if I were not me,
I can only guess me
.

De resto, todo o tema merece ser escutado com a maior das atenções. Uma nota: neste disco a panóplia de colaborações diz bem da musicalidade caleidoscópica onde caminham os intervenientes. Paul Weller e Brian Eno serão os mais conhecidos, mas há também Evan Parker no saxofone e Phil Manzanera nas guitarras. Quem não conhece não sabe o que perde.

1 comentário:

blimunda disse...

há já muitos anos que é, para espanto dos meus amigos, um dos meus autores favoritos... este album é genial mesmo