quarta-feira, 21 de setembro de 2011

MAIORIA





Mas a experiência de Henry David Thoreau nos bosques próximos do lago Walden não deve iludir-nos. Afinal, o homem apenas aguentou dois anos e dois meses de «uma vida mais elevada e espiritual». Depois regressou à civilização, deixando para trás o canto da cotovia e o rasto das cobras, abandonando as marmotas, os molotros e os cucos, para de novo se instalar entre os pobres de espírito. Sobre Thoreau apetece por vezes dizer o que o próprio afirmou acerca de certa personagem “incógnita”: «O desperdício da melhor época da vida, sacrificando-se uma pessoa para ganhar dinheiro com o fito de usufruir de uma duvidosa liberdade na velhice, faz-me lembrar o inglês que partiu para a Índia a fim de fazer fortuna e voltar depois a Inglaterra para viver uma vida de poeta. Deveria ter-se recolhido no sótão de uma vez!» (Walden, p. 70) Esta pretensiosa implacabilidade não reconhece o mérito das chamadas vidas banais. É um problema comum, a incapacidade de distinguir o valor de uma vida em função das ambições de cada qual.

O problema reside num autocentrismo assoberbado sem razão de ser. Muita gente está convencida de ter tido uma vida repleta de percalços e histórias incríveis, não lhe passando sequer pela cabeça que ao pé desses percalços e experiências incríveis a vida, vá lá, de uma criança soldado na Serra Leoa não é um mero facto desmistificador. Um homem que teve muitas mulheres pode morrer sem nunca ter tido verdadeiramente uma única mulher. Um homem que toda a vida teve a mesma mulher pode ter tido toda as mulheres do mundo. Só um tonto pode duvidar de que uma vida linear, sóbria, metódica e indiferente possa ser tão útil quanto uma vida inquieta, desassossegada, anárquica, extravagante, até porque a utilidade de ambas as “formas de vida” reside na razão intrínseca da existência dos seres humanos: virem um dia a servir de estrume. Daí que o interesse não esteja tanto na vida levada como parece estar na vida que se leva.

Pouco me importa que certo tipo passado dois anos e dois meses em regime de auto-suficiência no meio de um bosque ou que outro indivíduo qualquer tenha passado toda a sua vida caminhando de casa para o trabalho e do trabalho para casa, cumprindo escrupulosamente horários que lhe são impostos. O que me importa é a possibilidade de cada um destes seres se negar a si próprio, interrompendo, fintando, baralhando o curso da sua existência quando bem entender. A vida que cada um de nós leva é inexoravelmente condicionada por fenómenos exógenos e incontroláveis, sempre na direcção absoluta, certa, axiomática de um inevitável esquecimento. Tomá-la nas próprias mãos significa aprender a interpretar o seu curso. A palavra que nos cabe pode não ser determinante, nem mesmo decisiva, mas é, sem dúvida, actuante.

As conclusões são inspiradoras: «Com a minha experiência aprendi pelo menos isto: se uma pessoa avançar confiantemente na direcção dos seus sonhos, se se esforçar por viver a vida que imaginou, há-de deparar com um êxito inesperado nas horas rotineiras» (idem, p. 351). Prossiga quem estiver interessado. Importa, pois, desiludir a rotina, combater a sua fatalidade. Podemo-nos sentir tentados a considerar que Thoreau jamais poderia viver como um índio não tendo nascido índio, assim como um terrorista jamais poderá sê-lo se não tiver nascido terrorista, ou um pirata, ou um parvalhão qualquer, um cigano, um judeu, um palhaço, mas estes julgamentos pressupõem um destino ignorante do caos e da aleatoriedade em que a própria vida se exerce. As pessoas que se convencem de um papel histórico que a História jamais recordará vivem na ilusão de uma importância que a maioria desmente. A maioria é tramada, tem uma força tremenda.

2 comentários:

carol disse...

Que belo texto! - Só consigo dizer isto.
Obrigada.

maria disse...

Gostei do texto, Henrique. As duas frases finais é que me causam algumas reservas. O que importa não é a inscrição na História, mas que cada um assuma o risco da própria vida. A maioria...ou é ilusão minha ou vive-se bem sem ela.
Confrontando-me com estas duas frases, descubro-me uma razoável optimista. Não é que não veja o mundo à minha volta. Mas eu não sou o mundo.