segunda-feira, 17 de outubro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #30





Falemos de beleza. Quando Concert Program foi publicado, em 1995, a Penguin Cafe Orchestra contabilizava mais de 20 anos de actividade. Formada pelo compositor britânico Simon Jeffes (n. 1949 - m. 1997), o primeiro álbum saiu com o selo da EG Records em 1976: Music From the Penguin Cafe. Concert Program serviu para rever a matéria dada em dose dupla. O registo reproduz um concerto de estúdio gravado no dia 23 de Julho de 1994. As manifestações públicas típicas de gravações ao vivo foram substituídas por pausas silenciosas entre os diversos temas. Com uma música produzida à base de instrumentos acústicos, a Penguin Cafe Orchestra inscreve-se num território algo dúbio (“moderna música de câmara semi-acústica, segundo o autor”). Entre o minimalismo erudito e a folk de índole clássica, facilmente nos inebria com melodias nostálgicas tocadas em tempos moderados quanto baste. Quando o ritmo acelera, nunca se desvia de uma rota prazenteira e descontraída. São 20 temas integralmente instrumentais, ora dirigidos pelo piano, ora guiados pela guitarra clássica, com arranjos certeiros, aqui e acolá comoventes, levados a cabo por competentíssimas secções de sopros e cordas. Quase sempre os pormenores são o que melhor consubstancia o tom dos diversos temas. Por exemplo, no tema Southern Jukebox Music o baixo define uma cadência mais melancólica. Já nos temas Air à Danser e Beanfields, o ukelele oferece uma alegria contagiante. Sem que consiga explicar porquê, esta música envia-me para viagens através de vales ou sobre mares pacíficos, com paisagens naturais ao mesmo tempo reconfortantes e misteriosas. É provável que as composições de Jeffes tenham ficado muito a dever à sua passagem pelo Japão. Há nesta simplicidade uma beleza que não surge necessariamente sustentada pela harmonia. Raramente a harmonia, por si só, nos garante a beleza. Julgo ser antes o inexplicável, a desordem instalada por um mistério indefinível, o terreno de onde brota com mais força aquilo a que geralmente chamamos de beleza. Na poesia japonesa sucede algo semelhante. Por isso nos questionamos: como é possível algo tão simples nos comover como não conseguem comover-nos as obras mais complexas?

1 comentário:

André Couto disse...

Talvez porque somos seres extremamente simples. Nascemos simples, algures ali pelo meio complicamos e enredamos, com a maturidade voltamos à simplicidade.
Esses momentos de comoção com as coisas mais simples mais não serão do que um nostálgico regresso à origem. Daí que seja tão ambivalentemente simples mas aprazível.
Digo eu que disto nada percebo.


Cumprimentos.